O que 'O Senhor dos Anéis' e a psicologia têm em comum?
2026 marca os 25 anos do lançamento do primeiro filme da saga; o psicólogo Dr. Manoel Acioli analisa o impacto duradouro da obra de Tolkien
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sexta-feira, 09 de janeiro de 2026
2026 marca os 25 anos do lançamento do primeiro filme da saga; o psicólogo Dr. Manoel Acioli analisa o impacto duradouro da obra de Tolkien

Janeiro começou com uma notícia muito especial para fãs de “O Senhor dos Anéis” e para fãs de literatura fantástica de modo geral. Isso porque "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" completa 25 anos de lançamento e, como celebração, entre os dias 22 e 24 de janeiro, o público poderá ver pela primeira vez ou rever as obras no cinema, com o bônus de serem exibidas em suas versões estendidas.
Não é segredo que as obras escritas por J.R.R. Tolkien, assim como os filmes que ampliaram o alcance dessas histórias, dirigidos por Peter Jackson, continuam cativando públicos de diferentes idades e seguem sendo uma escolha recorrente para muitas pessoas maratonarem nos finais de semana, mesmo sem qualquer pretexto especial, apenas pelo prazer de acompanhar a jornada de Frodo e seus amigos.
Para o psicólogo Dr. Manoel Acioli, PhD em psicologia e terapia gamificada, o impacto duradouro da obra criada por Tolkien pode ser compreendido a partir de conceitos profundos da psicologia, que atravessam temas como identidade, pertencimento, amadurecimento emocional e construção de sentido.
Segundo Acioli, histórias épicas como "O Senhor dos Anéis" funcionam como verdadeiros mapas simbólicos do desenvolvimento humano. “Os personagens representam conflitos universais que atravessam gerações. Medo, coragem, tentação, amizade, perda e esperança são experiências humanas fundamentais. Quando o público se conecta com essas narrativas, ele também se conecta consigo mesmo”, explica.
A JORNADA DO HERÓI
Um dos principais elementos que sustentam essa relação afetiva ao longo do tempo é a estrutura narrativa da jornada do herói, modelo amplamente estudado na mitologia e na psicologia e popularizado por Joseph Campbell. Essa estrutura descreve processos de autoconhecimento, transformação pessoal e desenvolvimento da identidade.
Do ponto de vista das Terapias Cognitivo-Comportamentais, essa relação afetiva com narrativas ficcionais pode ser compreendida a partir do uso de protótipos narrativos socialmente aprendidos, que funcionam como modelos cognitivos organizadores de expectativas sobre mudança, enfrentamento e superação. Ao acompanhar personagens que precisam sair de sua zona de conforto, enfrentar desafios internos e externos e se transformar ao longo do caminho, o espectador ativa esquemas, crenças e estratégias de coping semelhantes às suas, reconhecendo seus próprios processos emocionais, diferentes fases da vida e favorecendo identificação emocional, aprendizagem vicária e flexibilização cognitiva.

SENSO DE PERTENCIMENTO
Outro fator central reforçado por "O Senhor dos Anéis", tanto nos livros quanto nos filmes, é o forte senso de pertencimento construído ao longo da narrativa. A jornada não é vivida de forma isolada, mas sustentada por vínculos, alianças e cooperação. “A obra mostra que ninguém atravessa desafios significativos sozinho. O pertencimento ao grupo oferece segurança emocional, validação e força para enfrentar o medo e a incerteza”, afirma o psicólogo. Sob a ótica das TCCs, esse aspecto dialoga diretamente com a importância do suporte social como fator protetivo para a saúde mental e para a regulação emocional em contextos adversos.
Acioli também destaca que o universo de Tolkien apresenta, de forma acessível, temas centrais da psicologia, como o conflito entre impulsos e responsabilidade, a influência do poder sobre o comportamento humano, o papel do coletivo na superação de desafios e a importância do cuidado emocional em tempos de crise. “O anel, por exemplo, simboliza tentações internas, compulsões e desejos que precisam ser reconhecidos. Já a amizade entre os personagens mostra como o suporte social é fundamental para atravessar momentos difíceis, algo que a psicologia clínica observa diariamente”, complementa.
O retorno dos filmes aos cinemas não é apenas um evento nostálgico, mas também uma oportunidade de revisitar histórias que continuam oferecendo ferramentas simbólicas para compreender emoções, relações e escolhas. Para o psicólogo, isso ajuda a explicar por que O Senhor dos Anéis segue relevante mesmo após duas décadas.
SOBRE MANOEL ACIOLI
Manoel Acioli é Psicólogo, Mestre e Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco e Universidade do Porto. Possui Pós-Doutorado em projeto de cooperação internacional com a Aix Marseille Université, a Université Lumière Lyon 2 e a Universidade Federal de Pernambuco. É membro do Laboratório de Interação Social Humana (LABINT/UFPE) e do Laboratório de Psicologia Positiva (LAPP/UFBA). Foi professor da Universidade Federal da Bahia e da Universidade de Ciências e Tecnologia. Atualmente desenvolve pesquisas de modelos terapêuticos gamificados no campo das Terapias Cognitivas e Comportamentais e é diretor da RPG Terapia - Instituto de Psicologia Gamificada.
* Com assessoria.


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