O que fica depois da coisa toda acabar
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terça-feira, 14 de junho de 2011
Adriana Ito/Redação FolhaWeb 
Antes do espetáculo começar, um ator se posiciona a um canto do teatro e fica a observar a plateia, que termina de se acomodar no Ouro Verde. É o Espectro do Ator, interpretado por Ricardo Martins, que vai introduzir o público em seu universo particular e que também será conduzido pelo desenrolar da trama. O ator contempla o teatro cheio, e, nesse momento, os espectadores é que são os fantasmas, imagem antiga resgatada de sua memória.
E de sua memória surgem mais do que imagens; há reflexões sobre tudo aquilo que se esvaneceu no tempo, mas que permanece lacrado em alguma ante-sala do passado. É desse vão no tempo-espaço que ele resgata os três personagens centrais da trama: a jovem Zoé (Patrícia Selonk), o ator Téo (Thales Coutinho) e a cantora Léa (Rosana Stavis), todos ligados, de algum modo, à morte (que aliás é personificada na figura de uma enfermeira e de uma puta, vividas por Simone Vianna).
''Antes da Coisa Toda Começar'' traz todas as marcas registradas do grupo Armazém, desde a cenografia móvel e que trabalha com diferentes altitudes até a forma como os atores proferem o texto, as marcações e as falas cheias de pequenas e deliciosas surpresas. E é o Armazém principalmente ao buscar uma nova adequação para tudo isso, subvertendo as regras. Por esse lado, a música executada ao vivo pelos próprios atores a princípio pode até causar certo estranhamento, mas depois se justifica por estabelecer um diálogo entre os fragmentos sem descambar no musical.
E as cenas são isso: fragmentos, mesmo. Porque o passado, o presente e o futuro não precisam respeitar uma linha quando não se está preso ao espaço. As histórias também se intercalam sem se interligarem (pelo menos não diretamente), e o texto preciso de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes (que também é o diretor) não deixa brechas para essa coisa toda desandar.
A direção de Moraes, juntamente com o trabalho dos atores, mais uma vez contribui para que a peça seja muito mais do que uma reunião de histórias que dialoga com o fazer teatral.
Patrícia Selonk brilha com a intensa Zoé, jovem inebriada de vida que se lança ao abismo de um amor proibido. Thales Coutinho mantém sua atuação densa e sabe imprimir a dose certa de comicidade no ator frustrado Téo. Também não dá para não se render a Ricardo Martins (o mesmo do Espectro) no papel do carismático travesti Rufus.
Já Rosana Stavis está perfeita como Léa, a cantora que se recupera de uma tentativa de suicídio e luta para não perder essa vontade de morrer. E se eu senti falta de Simone Mazzer não foi por falha de Rosana, e sim porque me pareceu que o papel havia sido criado para e moldado por Simone.
Depois de uma hora e meia de espetáculo, quando o Ouro Verde fica às voltas apenas com os próprios fantasmas e as pessoas retornam às suas rotinas (cada uma carregando a sua ante-sala particular do mundo), a gente percebe que tudo o que existia antes era invenção e memória. E, depois dessa coisa toda começar, se ainda não há a memória, só nos resta inventar.


