No final do ‘‘Tractatus’’ Wittgenstein escreve que, se uma resposta não pode ser posta em palavras, a pergunta também não pode ser feita, porque uma pergunta precisa ter resposta. É mesmo? Por que estamos aqui? É uma pergunta que todo mundo ciente se faz. Há várias respostas possíveis, mas nenhuma que convença logicamente. Na minha opinião, grande parte do prestígio de Wittgenstein se deve a Bertrand Russell, que deu o título a seu primeiro livro e concluiu que Wittgenstein concordava com ele em que só o provável contava na lógica analítica que Russell preconizava, e o resto estava fora da filosofia.

Revolução

A teorização do acaso, na Mecânica do Quântum. Gostaria de saber matemática a fundo para entender todas as implicações dessa formulação, recusada in limine por Einstein, Hegel, Marx, Freud, et al.
Toda a filosofia passada é determinista. Spinoza é quem melhor colocou essa convicção, numa carta, que, se uma pedra que cai tivesse consciência de si própria, acharia que cai por livre e espontânea vontade. O melhor argumento dos indeterministas é que o cérebro tem momentos em que escolhe entre diversos impulsos e estímulos igualmente atraentes. É puro acaso? Acaso como astrônomos já notaram em movimentos no espaço que não têm pé nem cabeça? Mas e daí? Aristóteles escreveu que ‘‘Adquirir sabedoria é agradável’’.

Críticos

É uma bela homenagem a Sérgio Buarque de Hollanda, crítico e historiador, 1902-1980, que a Companhia das Letras tenha publicado dois volumes de crítica do autor, ‘‘O Espírito e a Letra’’, ‘‘Estudos da Crítica Literária’’, organização de Antônio Arnoni Prado, o primeiro volume, cobrindo de 1920 a 1947, com 409 págs., e o segundo, de 1948 a 1969, de 679 págs. Buarque de Hollanda parece familiarizado com os clássicos gregos, Shakespeare, literatura clássica francesa, em suma, o sumo da cultura ocidental, e dá bastante atenção a questões teóricas de prosa e verso. É generoso e abrangente na análise dos nossos ficcionistas e poetas. Seu estilo é claro e procura dar opiniões contrárias às suas nos textos que examina. Sempre se sente a seriedade do autor e o que se chamava bagagem. Qualquer pessoa interessada em literatura pode aprender muito com esses dois livros.
Pode se discutir opiniões de Sérgio Buarque de Hollanda. Critica Afrânio Coutinho, autor de ‘‘A Filosofia de Machado de Assis’’, por comparar o romancista a Pascal, em ‘‘ódio à vida’’, expressão que acha excessiva para Machado e Pascal. Considera o pessimismo de Machado decorrente do seu ceticismo. Acha que o humor de Machado esconde um sentimento de deficiência. Mulato, levando uma vida social-de-pé-atrás, temendo o insulto, funcionário público servil a poderosos, com um casamento possivelmente branco; ‘‘deficiência’’ é uma boa palavra. Melhor ainda, Buarque de Hollanda encontrou ‘‘arrepio acre’’ de Machado diante das coisas. Mas me pergunto se alguém que escreveu ‘‘A ocasião faz o furto. O ladrão já nasce feito’’ não odeia, de certa forma, o gênero humano. Certo é que não tinha aspiração religiosa, como Pascal. Buarque de Hollanda fala das esperanças de Pascal, por ‘‘Um Deus escondido’’, que acha incompatíveis com ‘‘ódio à vida’’. Mas o fato é que não é fácil distinguir entre os jansenistas, como Pascal, o que é fé e ‘‘ódio à vida’’. Pascal repreendeu uma irmã por acariciar seu filho. Os jansenistas foram o mais exclusivo clube espiritual do catolicismo. Uma vez bafejados pela fé, perdiam totalmente o interesse pelo resto. Não que Machado acreditasse em tal coisa. Aceitava a extinção, pura e simples: ‘‘Não deixamos a ninguém o legado da nossa miséria.’’
Sobre Proust, Buarque de Hollanda se demora sobre o esteticismo do autor, sua crença de que a arte é o consolo único das fraudes que a vida nos dá. Waal, é um ponto de vista legítimo e conclusão do romance ‘‘O Tempo Reencontrado’’, mas vivemos intensamente Swann, Charlus, Marcel e Albertine. É como se o crítico usasse sempre polainas brancas diante da sujeira criadora do modernismo.

Mogadon

Mogadon Suplicy deixou dois recados na minha máquina. Era um jovem simpático, unprepossessing, como dizem, quando o conheci. Amigo de Cláudio Abramo. Falava como Ed Murrow descrevendo os bombardeios de Londres em 1941. Murrow dizia: ‘‘This is...’’ Pausa e ouvia-se o assobio e estrondo de uma bomba. Murrow: ‘‘London’’. Só que Mogadon não tinha áudio. Era: ‘‘Como..., longa pausa: Vai?’’ Conseguiu acelerar a fala, metendo uma segunda verbal, ao menos. Havia uma infantilidade nele que alguns achariam comovente. Teimoso como criança. Fez Fernando Henrique perder a eleição de prefeito para Jânio Quadros, dividindo o voto. Perdeu a inocência quando votou numa comissão do Senado para não abrir as contas particulares da filha de Sarney. Como diria Pascal, esse socialista atirou alto e terminou no bueiro.

Mogadon 2

Mogadon tem um estudo-discurso sobre imposto de renda negativo e garantia de renda mínima para os destituídos. Chama-se ‘‘Renda Mínima’’, 32 págs. Junto, recebo um livro chamado ‘‘Real freedom for all’’, de Phillip Van Parijs, Oxford, 330 págs., sem preço. O autor é catedrático de economia e ética da Universidade Católica de Louvain. Há coisas no livro que raramente são vistas no Brasil, uma consideração das idéias sociais de John Rawls e Ronald Dworkin, por exemplo. Mas é a velha história de sempre. Van Parijs é contra o socialismo coercitivo mas quer um sistema que garanta um mínimo de renda a quem não consegue sobreviver no mercado. O problema é que este mínimo, se imposto em economias subdesenvolvidas, como grande parte das economias mundiais, só pode ser imposto coercitivamente. Seus efeitos são invariavelmente o oposto do pretendido. Se queres um monumento, olha o INSS.

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