O que é isso em Berlim?
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de janeiro de 1997
Patricia Decia Agência Folha 
ReproduçãoBruno Barreto: trecho de As Time Goes By inspirou o filme
Sou um humanista é a frase-chave de Bruno Barreto para explicar sua adaptação de O Que É Isso, Companheiro?, livro do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), para o cinema.
A produção, que tem Pedro Cardoso, Fernanda Torres e o norte-americano Alan Arkin no elenco, foi indicada para a mostra competitiva do Festival de Berlim (Alemanha). É exatamente o que eu queria, porque sempre foi um festival mais voltado para filmes com assuntos políticos, que têm um lado mais polêmico, disse. E a polêmica é quase certa para a reinterpretação da interpretação de Gabeira sobre um episódio da luta armada no Brasil: o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969. Em Nova York (EUA), Barreto ainda supervisiona os últimos detalhes da cópia que vai para a Alemanha e se prepara para começar as filmagens de One Tuff Cop (Um Tira Durão), título provisório para a história de dois amigos, um policial e um mafioso, que terá Chris Penn e Marky Mark no elenco, além de participação especial de Amy Irving, mulher do cineasta. Em entrevista, Bruno Barreto conta que o elemento catalisador para o roteiro do filme foram dois versos de As Time Goes By, tema do filme Casablanca.
Como foi adaptar o livro?
Bruno Barreto -Houve um momento, em 1994, em que eu quase desisti de fazer o filme. Eu já estava trabalhando no roteiro desde 1986, ou seja, oito anos, com seis roteiristas diferentes, três norte-americanos e três brasileiros. O problema todo é que esse livro é muito difícil de ser adaptado ao cinema, porque se passa sobretudo na cabeça do personagem. É um monólogo, uma reflexão, muito pouco factual.
O Gabeira se refere a ele mesmo como narrador...
Barreto -Aliás, todos os personagens existem nesse livro, menos o Gabeira. Por isso eu levei meses para decidir qual ator faria o Gabeira. Mesmo durante os ensaios, eu e o Pedro Cardoso falávamos que é o personagem mais difícil, por ser o menos definido.
O filme vai
causar polêmica
porque não
toma partido
E qual foi a solução?
Barreto -Eu voltei ao Gabeira pedindo mais fatos, mais histórias, porque reflexão não dá cinema. Cinema é interação de personagens, dramaturgia.
Finalmente eu convenci o Leopoldo Serran, que tinha se negado a participar em 1986. Em 1994, ele foi para Los Angeles (EUA), mas não garantiu nada. Nós nos encontrávamos todo dia e falávamos de tudo, menos do filme. Um dia, estávamos no carro indo para o escritório e tocava no rádio As Time Goes By, tema do filme Casablanca. A música tem aquela frase Its always the same old story/ A fight for love and glory.... Leopoldo olhou para mim, eu para ele, e era isso o que todas aquelas pessoas tinham em comum, elas todas queriam amor e glória. Esse foi o fator catalisador para começar o roteiro.
Isso mudou o filme?
Barreto -Nós sabíamos que queríamos um filme sobre todas as pessoas envolvidas naquela história, não sobre o Gabeira. Não era um filme sobre a investigação de um jornalista que se envolve na luta armada contra a repressão. O livro sugere que o filme vá ser uma investigação da alma daquele personagem. Mas eu queria um filme sobre o que elas tinham em comum, desde o torturador, passando pelo embaixador e chegando aos sequestradores.
E como fica a oposição entre realidade e ficção?
Barreto -É um filme de ficção, que reinterpreta a realidade, como o próprio livro já era uma reinterpretação. O filme são as minhas impressões sobre o livro do Gabeira e sobre aquela época. Fiz um filme pegando as duas pontas da ferradura, que estão distantes e próximas ao mesmo tempo, a extrema direita e a extrema esquerda. Sou um humanista e o filme é sobre os seres humanos.
Os personagens então são simbólicos?
Barreto -Sim. O torturador é um personagem simbólico, ele não é baseado em ninguém. O próprio Gabeira vira um personagem simbólico que vê as fronteiras entre ser um intelectual e ter que trabalhar com a rigidez militar. O embaixador Elbrick não é favorecido. Ele sobressai porque é o fiel da balança, é o pêndulo, não está nem de um lado, nem do outro.
Você acha que o filme provocará polêmica?
Barreto -Não fiz esse filme para quem já sabe a história, mas para a maioria das pessoas que vão vê-lo. Mesmo no Brasil, e mesmo os que já sabem. Falo isso baseado nas projeções que já aconteceram, as pessoas ficam extremamente emocionadas. O filme vai causar polêmica porque não toma nenhum lado. É um filme sobre as pessoas envolvidas nessa história, não sobre as idéias.
O fato de ser falado parte em inglês e ter personagens e atores norte-americanos ajuda na carreira internacional?
Barreto -Não. O que ajuda é que se trata de uma história muito atual. Olha o que está acontecendo no Peru. Sucesso é 50% da qualidade da sua obra; os outros 50% são timing, o momento.
E qual a recepção internacional até agora?
Barreto -A curadora de cinema do MoMA (Museu de Arte Moderna), Adriane Mancia, que já disse que não gostava de filmes meus como Gabriela e Além da Paixão, fez um comentário muito interessante, que ouvi também de dois outros americanos. Eles achavam o filme muito bem escrito. Para eles, dá para ver que os diálogos não são sentenciosos. Essa é uma das grandes qualidades e mérito do Leopoldo Serran.


