Muitas pessoas convivem com o fato de os filhos ficarem trancados em seus quartos, presos ao universo fantástico da internet, um mundo que se abre, enquanto outros se fecham, privando adolescentes, e mesmo adultos, dos relacionamentos reais.

A série britânica "Adolescência", Top 1 da Netflix desde que foi lançada este ano, indica os riscos deste ambiente "seguro" que transforma uma parcela significativa de pessoas na "geração do quarto."

A série põe o dedo na ferida do isolamento, das angústias, do sofrimento pelo bullying e, por fim, do ódio às mulheres que alguns grupos cultivam, inclusive em comunidades virtuais.

A situação pode levar à condição de "incel", expressão inglesa que significa "celibatário involuntário", aquela porção de homens que se sente revoltada pela rejeição feminina e cria desvios perigosos para combater sua angústia.

A série traz o garoto Jamie Miller, de 13 anos, (Owen Cooper em seu primeiro papel), suspeito pela morte de uma colega da escola. Dizer mais que isso seria um spoiler e o objetivo não é entregar o enredo, mas detalhar uma expressão que, na série, constrói o núcleo das perguntas e respostas para um crime.

"Incel", palavra que viralizou com a série, é uma expressão desconhecida por pessoas pouco familiarizadas com o universo da aversão às mulheres, presente também na internet e nas redes sociais, onde vocabulários e emojis podem funcionar como punhais cravados na autoestima de muita gente.

Na série, um garoto da idade de Jamie fica envergonhado pelo fato do seu pai, o policial que investiga o crime, não conhecer os emojis e a palavra "incel", utilizados pela jovem morta nas conversas com os amigos.

A palavra só entra no radar do policial quando seu filho explica o termo que passaria batido para gerações indiferentes a gírias e expressões usadas pelos mais jovens.

"Incel" - ou "celibatário involuntário" - se refere a homens inseguros, com dificuldades de socialização, que se sentem incapazes de se relacionar com mulheres, não por falta de desejo, mas por não se sentirem suficientemente atraentes. No caso da série, Jamie tem baixa autoestima registrada desde a infância e superdimensionada na adolescência. O ator e co-criador da produção, Stephen Graham, se baseou na história real de um jovem que praticava crimes com faca.

A série resgata uma teoria da economia para explicar uma ideologia, segundo a qual, 80% das mulheres só se interessam por 20% dos homens. Essa teoria seria a demonstração de que a grande maioria dos homens é rejeitada por sua aparência física ou qualquer outra "falta", redundando no afastamento das mulheres.

Neste ponto, a cultura da aparência e dos padrões de beleza, muito valorizados dentro e fora das redes sociais, explica o sentimento de inferioridade que pode desaguar na misoginia e no ódio às mulheres, dando origem ao "incel", condição que é a chave do desejo reprimido de Jamie e de milhares de adolescentes que não se sentem suficientemente atraentes para merecer o amor.

O viés psicológico do drama de quatro episódios tem uma delicadeza suprema ao expor feridas que podem estar trancadas em quartos e corações fechados para os relacionamentos e as emoções básicas por medo ou vergonha. Fica o alerta para pais, amigos e irmãos: liguem o radar quando o isolamento excessivo dominar alguém muito próximo, que só se relaciona intermediado por telas, escondendo-se dos afetos reais por baixa autoestima.

Você conhece alguém assim?

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