O que é bom náo nasce brega
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de agosto de 1997
Telma Elorza Londrina 
Paulo WolfgangOthônio Benvenuto: É um absurdo pôr uma obra como Pour Elise em caixinha de música ou para vender gás de cozinhaPor favor, aguarde um minutinho na linha. Antes que se possa responder, soam os primeiros acordes: ta ra ra ra ra ra ram... Não há dúvidas. É a fatídica peça Pour Elise, de Beethoven, sofrivelmente executada por uma caixinha de música. Se a ligação não for de urgência, com certeza vai cair. Para maioria das pessoas, a irritação com estes acordes geralmente é tanta que preferem deixar o telefonema de lado a ter que suportar tal coisa.
Uma peça erudita como Pour Elise pode ser brega? Segundo o maestro Othônio Benvenuto, se for mal executada, pode. O brega entra aí no sentido do mau uso, da repetição cansativa e mal feita. Na minha opinião, é um absurdo pôr uma obra como Pour Elise em caixinha de música ou para vender gás de cozinha - afirma.
Segundo o maestro, se não for pela má repetição, não existe música erudita que nasceu brega. Existem três tipos de música: a erudita, a semi-erudita e a popular. Erudição é saber aprofundado, o que pode tornar uma obra de difícil compreensão. Na música popular, os acordes são simples, não há uma elaboração temática, o que facilita a identificação para o ouvinte - explica. Benvenuto afirma que um compositor erudito precisa muita elaboração nos estudos da música, com aprofundamento na harmonia, contraponto, orquestração e forma. Se não há estes estudos, o compositor fica no popular, às vezes chegando à semi-erudição. Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé é uma obra semi-erudita, mas ele estudou - garante.
Decodificação Definidos estes conceitos, o maestro diz que o que entra em discussão é a decodificação da obra por parte do ouvinte. A popular, ouve-se duas ou três vezes e não há mais mistério. A erudita pode-se ouvir 100 ou 10 mil vezes, bem executada, que sempre se descobre um novo timbre - afirma.
O que pode acontecer, segundo ele, é que as obras se tornaram erradamente decodificadas. A obra Minueto, de Beethoven, já foi até transformada em marcha de carnaval. Aquele músico argentino, Valdo Del Rio, pegou a música 140 de Mozart e a transformou em um ritmo dançante. A Marcha Fúnebre, de Chopin, também foi transformada em música popular. É o uso abusivo que torna brega uma coisa que não nasceu brega - afirma.
Benvenuto diz que não acha ético fazer estas transformações. O código penal diz que ninguém é obrigado a fazer o que a lei não manda e nem deixar de fazer o que a lei não proíbe. Quer dizer, não é ilícito pegar obras eruditas e torná-las popularescas. Mas quem sai perdendo é o próprio público, que acaba por não apreciá-las em todo seu vigor e beleza - afirma.


