Na frase ''nós professores temos um papel a cumprir na sociedade'', talvez por influência da oralidade, tende-se a escrever o aposto sem vírgula, e mesmo essas vírgulas (nós, professores, temos) tendem a deixar a frase truncada ou até ambígua: professores - aposto ou vocativo? É aceitável a ausência das vírgulas? João Reguffe, Rio Grande/RS

Não é questão de erro a colocação ou não de vírgulas nesse caso, mas de diferença de sentido: com vírgulas, é aposto explicativo; sem vírgulas, aposto especificativo. É basicamente semelhante ao emprego da oração adjetiva, que apresento em mais detalhes na segunda edição do livro ''Só Vírgulas - método fácil em vinte lições'' (2000).
O aposto especificativo qualifica o termo anterior limitando seu sentido. Muitas vezes ele se refere a uma espécie entre várias espécies, ou seja, a menção se restringe a apenas um elemento ou um grupo entre outros da mesma categoria ou espécie. Assim, se se pensa no grupo ''brasileiros'' em relação a outras nacionalidades do planeta, está se usando um aposto especificativo. Em ''nós brasileiros somos festeiros'', faz-se referência a brasileiros apenas, e não a argentinos, franceses, italianos, russos, chineses etc.
Outro exemplo é uma frase dita por Hebe Camargo à revista Istoé e que foi corretamente grafada: ''É hora de resolver os problemas, de amenizar essa fome que está assolando o País e é horrível para nós brasileiros''. Sim, é horrível para os brasileiros, e não para o resto do mundo.
E na revista Época, uma carta de leitor registra: ''Até que enfim um texto sensato, pois para nós, brasileiros patriotas, o cancelamento do visto foi justo''. Dessa forma, com as duas vírgulas, a pessoa está dizendo que todos os brasileiros são patriotas. Até pode haver brasileiro impatriota, mas não seria ele nem eu a afirmar isso.
Uma consulente de Porto Alegre, Bianca Casagrande, nos manda duas frases em que ela crê não haver aposto separado por vírgulas:
1 Entendo que é a mais alta traição a nós torcedores do futebol brasileiro. Certo. Nem todas as pessoas do mundo torcem pelo futebol do Brasil. De igual modo, escreve-se, por exemplo, ''nós torcedores do Flamengo'', pois há outros torcedores: do Figueirense, do Grêmio, do Corinthians...

2 Mas nós, principalmente nós parlamentares éticos nas nossas posições, conscientes nas nossas declarações, não podíamos externar o nosso pensamento. Certo. O próprio falante, ao usar o termo ''principalmente'', já declara que nem todos os parlamentares são éticos.
Em suma, é preciso considerar sempre a idéia de restrição em oposição a totalidade. Essa restrição, para exemplificar mais um pouco, fica bem clara em frases como:

- Nós professores temos um papel a cumprir.
- Se nós latino-americanos não temos a tecnologia que os soviéticos tinham há 40 anos, é sinal de que estamos muito mal.
- Nós da classe média temos vivido no sufoco.
- Campanha feita por nós portadores de Aids...

Já na frase ''nós, seres humanos, somos um mistério'', o aposto ''seres humanos'' é explicativo porque todos somos seres humanos. A propósito, Maria Laís Pestana nos traz uma dúvida gerada pelo uso da preposição com: ''Tal como aconteceu com nós, seres humanos, ou tal como acontece conosco, seres humanos?'' A primeira forma (com nós, seres humanos) é a correta, porque se usa ''com nós'', e não ''conosco'', quando o pronome ''nós'' vem seguido de um aposto, seja ele explicativo ou especificativo: ''com nós três, com nós todos, com nós da família Tal''.
No caso do título deste artigo para voltar à primeira consulta a vírgula até poderia criar a mencionada ambiguidade. Em ''O que pensarão de nós, brasileiros?'' seria possível o último termo se passar por um vocativo: ''O que pensarão de nós, [ó] brasileiros?''

* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br

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