'O Quarto ao Lado', de Pedro Almodóvar, estreia em Londrina
Em cartaz, um drama com dignidade, humanidade e empatia que trata da amizade e dos ritos de preparação para a morte
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de outubro de 2024
Em cartaz, um drama com dignidade, humanidade e empatia que trata da amizade e dos ritos de preparação para a morte
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Obviamente inevitável é a morte. Alguns ficam tão obcecados com isso que se esquecem de viver, enquanto outros tentam pensar nisso o menos possível. Não importa, o destino vai ser o mesmo para todos, seja você a pessoa mais rica do mundo ou se não tem dinheiro nem para se alimentar. E, claro, com o passar dos anos, a inevitável proximidade dela torna também inevitável a lembrança dela.
De alguma forma, a morte sempre esteve presente no cinema de Pedro Almodóvar. Foi assim em “O Que Fiz para Merecer Isto”, onde a personagem de Carmen Maura liquidou aquele marido machista. Claro que “O Matador”, onde os touros e um serial killer se misturavam no liquidificar do cineasta ainda desregrado. Ou em “De Salto Alto”, onde um crime foi confessado no horário nobre da televisão. Mas também quando Almodóvar começou a encontrar fama internacional e a refinar o seu estilo até atingir o auge da sua carreira com “Tudo Sobre Minha Mãe”, “Fale com Ela” ou “Volver”, todas histórias atravessadas pela morte.
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O cineasta sempre garantiu que viveu rodeado pela finitude e pelos ritos que a rodeiam, como bem mostra aquela cena de abertura de “Volver”, na qual as mulheres limpavam túmulos e vigiavam os mortos nas casas. Sua relação com um tema tão doloroso foi predefinida pelos costumes atávicos do povo da região de La Mancha, seu rincão natal. Sua evolução como pessoa e como artista também mudou a forma como ele fala sobre o tema. O momento atual dele como diretor é diferente. Um momento onde o melodrama exacerbado foi deixado um tanto de lado, e onde o drama mais seco entrou em cena a partir da virada que foi “Julieta” (2016).
“O Quarto ao Lado”, Leão de Ouro mês passado em Veneza e em lançamento nesta quinta-feira (24) em Londrina, é seu filme mais marcado por ela. Também é seu primeiro longa-metragem em inglês (entre os 23 que realizou até agora). As expectativas eram excepcionalmente altas. Uma vez visto, considero o filme uma proposta notável e muito estimável, principalmente pelo trabalho de suas duas protagonistas, sem no entanto alcançar o nível da exuberância de outros trabalhos seus.

SOBRE A MORTE
Julianne Moore é uma escritora de sucesso que descobre que sua velha amiga Martha (Tilda Swinton) está doente. Muito doente. Ela não a ve há anos, mas o vínculo entre era muito forte. A certa altura, partilharam até um amante “entusiasmado” (John Turturro, que vemos fazer um discurso sobre alterações climáticas, sem muito entusiasmo – ligeiro comentário político, sem importancia dramática).
As duas rapidamente se reconectam, mas Martha, cansada do sofrimento e dos tratamentos experimentais que não levam a lugar nenhum, tem um plano: ela quer morrer.
Ninguém deveria se surpreender com o fato de Almodóvar optar abertamente pelo caminho do melodrama para contar uma história como “O Quarto ao Lado”, baseado em novela de Sigrid Nunez, co-autora do roteiro com o diretor. Em última análise, a ideia de explorar de outra forma algo tão fortemente ligado ao tema da eutanásia seria chocante, mas Almodóvar prefere não optar por um drama demasiado invasivo, preferindo dar mais importância a pequenos detalhes em torno de uma decisão irreversível. E talvez por isso praticamente todo o filme gire em torno de uma amizade que parecia perdida e que ressurge num ambiente muito particular. Poderia ter havido muita presença do luto como motivador para a personagem de Julianne Moore, mas tudo é muito mais genuíno, parecendo duas pessoas recuperando o relacionamento de onde havia parado há muitos anos. Isso também significa que o protagonismo de Moore e Tilda Swinton é absoluto.
Sem esquecer sua marca registrada habitual, isto é, a essência estética sempre visceral – aquela construção de espaços, alinhada a um fio musical impecável –, o cineasta propõe uma peça de câmara para todos os públicos: quem quer curtir um melodrama à la Douglas Sirk está com sorte, mas também quem busca no cinema a profundidade de um discurso tão belo quanto amargo, tão real quanto a própria vida.


