DivulgaçãoA julgar pelo que nos tem dado o Festival de Curitiba, o teatro brasileiro parece estar irremediavelmente condenado à mediania e ao marasmo. Pior: oscilando entre o besteirol mais, ou menos, assumido e as vanguardices infanto-juvenis de pretensos renovadores dos rumos da dramaturgia universal, parece não haver espaço para a boa e velha arte cênica, tal como concebida desde os gregos, e muito antes deles.
No auditório da Reitoria, com o aguardado ‘‘Para Sempre’’, de Maria Adelaide Amaral, hora e vez do teatrão mais quadrado, incapaz de perguntar-se a que veio, para onde vai e, em última instância, a que se propõe de fato e verdadeiramente. Correto, sem dúvida. ‘‘Clean’’ e chapado, esmerado e grandiloquente - essas coisas ninguém contesta. O que se pede ao teatro contudo é bem mais que isso: o que se pede ao teatro é o conflito, o ‘‘páthos’’, o drama humano em carne viva, sem ‘‘parti pris’’ nem adesões prévias. O que se pede ao teatro talvez seja um pouco de loucura.
Loucura, paciente leitor; não a piração explícita com que vanguardeiros de variado matiz pretendem borrar a, admitamos, irritante pasteurização do teatrão nosso de cada dia.
Tendo Paulo Autran como a grande estrela da noite, a um seu menor movimento ou coceira, o público que lotava o auditório da Reitoria não se continha - ria, ria muito e desbragadamente, por certo que rindo ainda - pois é, ainda! - do Baldaracci global da tele-diarréia ‘‘A Guerra dos Sexos’’ . Max, o velho professor universitário e escritor, homossexual em final de carreira, personagem patética e dolorosa de Maria Adelaide Amaral, deste o público passava ao largo. Certo que Autran também não contribuía nem um pouco para que se desse o contrário.
No cenário óbvio demais, reproduzindo a sala de um apartamento de classe média paulistana, com os seus tão indefectíveis quanto impecáveis (e modernosos) sofás, mais o computador e um aparelho de CD, fosse possível haveria quadros de pseudo Manabu Mabes pelas paredes. Poupou-nos o cenógrafo - cujo nome, aliás, não consta de nenhum dos boletins oficiais do evento - deste vexame. Seria, convenhamos, demasiado.
Mas é neste espaço de ‘‘set’’ televisivo, que não parece perder sequer para a ‘‘sala de visitas’’ da Hebe Camargo, que se movem as personagens: o já referido professor Max, o seu ‘‘caso’’ Tony, vivido pelo excelente ator Celso Frateschi, e Eva (Karen Rodrigues), ‘‘coroa’’ liberada, artista plástica, amiga do ‘‘casal’’ que, ressalte-se, está prestes a comemorar 18 anos de vida em comum. Não tão comum assim, a perceber, quando possível, as (magras) sutilezas do texto. Pelas quais, claro, entre outras entrelinhas, o grosso do público passa batido. Of course.
Integrar a homossexualidade e o amor homossexual às banalidades - prosaicas - da vida, talvez seja a maior contribuição de ‘‘Para Sempre’’, se esta revelação não fora, em si, mais banal que um balde ou um cabide.
Sem a intensidade que lhe daria um rumo e certamente um sentido, o texto de Maria Adelaide Amaral, quando prestes a ‘‘agarrar’’ o conflito, no belo diálogo em que o simplório Tony, bancário e siderado em informática, desmascara a ‘‘dominação’’ pela via do saber, imposta, desde sempre, por Max, numa contradição às claras do que pregam seus livros e aulas e as aulas e os livros de seus amigos intelectuais, quando nesta fímbria e abismo, desvia-se fragorosamente do que poderia fazer de ‘‘Para Sempre’’, uma peça antológica de nossa dramaturgia. Não, prefere, de novo, a superficialidade, o riso fácil, a comédia ligeira e borboleteante. Perde o melhor: a verticalização do ‘‘confronto’’, o embate do espírito. É uma pena.
Nestes trilhos, ou outros que tais, psico leitor, não haverá mais teatro.

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