O pulsar das trevas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
''James Ellroy é o maior escritor policial de todos os tempos''. Esta frase não saiu da boca de nenhum crítico literário. Também não foi dita por nenhum pesquisador acadêmico, nem por nenhum jornalista do mundo das letras. Muito menos por algum leitor fissurado por romances policiais.
A frase saiu da boca do próprio escritor norte-americano James Ellroy. Ironia, provocação, marketing ou prepotência podem estar presentes na declaração, mas em nada altera a maneira como sua escrita colocou novo oxigênio no gênero policial.
Aos 53 anos de idade, James Ellroy estará pela primeira vez no Brasil participando da Flip - Festa Literária de Paraty que acontece de 6 a 10 de julho na cidade de Paraty (RJ). Ele participa de uma conversa no dia 9 com o tema ''Lugares Escuros''. Também estará lançando seu mais recente livro, ''Sangue Errante'', romance que encerra a trilogia intitulada ''Underworld USA'' iniciada com ''Tablóide Americano'' (1998) e ''6 Mil em Espécie'' (2002).
''Sangue Errante é a obra-prima de James Ellroy''. Claro que esta frase saiu da boca do próprio, mas trata-se de seu romance audacioso. Lançado pela editora Record, é um catatau de quase mil páginas recheado com todas ousadias narrativas que caracterizam sua literatura. Uma escrita nervosa, fragmentada, veloz, crua, desbocada e experimental.
''Sangue Errante'' é povoado por centenas e centenas de personagens. O volume é tão intenso que pode deixar o leitor confuso e atordoado. Parece ser esse justamente o objetivo do autor. Jogar o leitor num redemoinho insano onde o vórtice aponta para a destruição total da ideia do clássico sonho americano. Um vendaval de corrupção, violência, assassinato, manipulação, loucura, insanidade, delação, crimes, atrocidades e toda coleção possível dos porões da política e da polícia.
O romance é composto de várias narrativas que - como peças de um quebra-cabeça completamente pirado -, vão se encaixando aos poucos e, ao mesmo tempo, parindo novas e novas peças em busca de novos encaixes. Ao lado de turbulentas narrativas paralelas em terceira pessoa, surgem diários, conversas telefônicas gravadas, dossiês de investigações policiais, testemunhos falsos e muito mais.
Entre as centenas de personagens, alguns ocupam lugar de destaque. Entre eles está Dwigth, homem de confiança do soberbo diretor do FBI. Violento e reacionário, tem como missão eliminar os ativistas negros e rebeldes comunistas. No meio do caminho se apaixona por duas radicais vermelhas.
Outro destaque é Wayne, ex-policial e traficante, responsável por negócios que envolvem investimentos de políticos corruptos e criminosos da máfia. Conhecido como racista e exterminador de negros, responsável pelo atentado contra Martin Luther King, mantém um caso amoroso com uma ativista negra dos direitos humanos.
Para fechar o covil, está Crutch, um detetive particular especialista em desvendar adultérios que, nas horas vagas passa o tempo matando admiradores de Fidel Castro.
Aquilo que une esses três personagens entre si é um antigo roubo de um carro-forte carregado de esmeraldas em que praticamente todos os envolvidos foram assassinados. Como crime insolúvel, seus elementos aparecem como fantasmas de outros crimes, mortes e corrupções.
A fragmentada história narrada por James Ellroy acontece entre o período de 1968 e 1972. Entre as figuras reais que desfilam por ''Sangue Errante'' estão os irmãos Kennedy, o presidente Nixon e os Panteras Negras. Não há distinção entre assassinos e policiais. Entre políticos e criminosos. Revolucionários e traficantes. Tudo se mistura num único bolo delirante com uma vela de dinamite por cima. Acesa.
A literatura de James Ellroy ficou mais conhecida quando dois de seus romances foram adaptados para o cinema. O primeiro foi ''Los Angeles: Cidade Proibida'', filmado por Curtis Hanson em 1997, e depois ''Dália Negra'', dirigido por Brian de Palma em 2006.
A própria biografia do escritor é uma espécie de história policial. Filho de um contador e uma enfermeira, viveu desde a tenra infância sob o saia da mãe, após a separação do casal. Quando tinha 10 anos de idade, sua mãe foi brutamente assassinada por um serial-killer, um crime nunca esclarecido pela polícia. Obrigado a morar com o pai, começou a cometer todo tipo de delito, sendo expulso de casa e da escola. Vivendo de pequenos roubos, viveu como mendigo viciado em álcool e drogas ao longo de anos, tendo 70 passagens pela polícia segundo a lenda.
Após sérios problemas de saúde, deu uma reviravolta. Entrou de cabeça na literatura ganhando a vida como carregador de tacos de golfe. Publicou seu primeiro livro com 33 anos de idade. Toda essa história é narrada em ''Meus Lugares Escuros'', obra biográfica lançada pela editora Record em 1999. Sua tentativa em solucionar o assassinato da mãe o levou a escrever grande parte de seus romances. O crime insolúvel ficou martelando em sua cabeça durante décadas e, até hoje, seus livros sempre trazem personagens cuja mãe desapareceu de maneira desconhecida.
Escrito totalmente com frases curtas, radical economia de adjetivos, coroadas com um humor ácido desprovido de qualquer tipo de gordura, ''Sangue Errante'' é uma viagem por um mundo que ninguém espera ser real. Um mundo que foi erguido para não se tornar público. Os lugares mais sombrios da polícia e da política. Os lugares mais sombrios daqueles que desejam mudar a polícia e a política. E também a vasta manada vagando entre um ponto e outro. Vagando sem saber a origem das trevas.
Serviço:
Sangue Errante
Autor - James Ellroy
Editora - Record
Tradução - Ivanir Alves Calado
Páginas - 960
Quanto - R$ 77,90
O vapor os cobria. Calçavam sapatos com solas de borracha. Usavam cintos com bombas de gás. Usavam blusas de mangas compridas abotoadas. A cor da pele estava oculta. O som de uma pancada surda. A testa do guarda explodiu. Os outros dois guardas tentam sacar as pistolas. Os mascarados atiram pelas costas. Estremecem e tombam para frente. Os mascarados atiram na cabeça dos dois, à queima roupa. Os estampidos e o estalar dos crânios soam abafados.
São 7h19. Ainda está silencioso. Ainda não há tráfego de pedestres ou borburinho causado pelo acidente de carro.
Barulho agora - dois tiros mais ecos altos. Fogo saindo dos canos, formas estranhas, estampidos vindo das fendas para armas do carro blindado.
São 7h22. A fumaça se dispersou. Não há um segundo guarda dentro.
Eles entraram.
Pegaram. O Mascarado 2 tinha um saco de aniagem enfiado na calça. Puxou-o e abriu.
Pegaram. Encheram o saco.
O Mascarado 3 abriu uma bolsa de dinheiro. Um maço de notas de 100 quase escapou para fora. Ele puxou a tira com o timbre do banco. Jatos de tinta espirraram nele e nos buracos da máscara. Ele levou tinta na boca e nos olhos.
Engasgou, cuspiu tinta, esfregou os olhos e saiu tropeçando pela porta. Cagou nas calças e ficou agitando os braços.
(Fragmento de Sangue Errante de James Ellroy)


