Antônio Mariano Júnior
De Londrina
O espetáculo não tem peso dramatúrgico nenhum, a cenografia é pobre de marré de si e o texto recheado de piadinhas que parecem ter saído do anedotário das filhas de Maria. Ou seja, tudo é meia boca. Mas é impossível não se render aos encantos da empregada doméstica Filomena que a atriz Gorete Milagres incorporou nesse final de semana em palcos de Curitiba e Londrina. É o tal negócio: piadas bobinhas acabam arrancando boas gargalhadas se bem contadas, mesmo aquelas que a gente ouvia quando tinha centímetros e não metros de altura.
Sob o pretexto de tentar arrumar um emprego, surge Filó na escuridão do teatro. Faz as piadinhas iniciais e quando as luzes se acendem é ovacionada pelo público interessadíssimo nas peripécias da coitada que saiu da cidade de Pau Grande para tentar a vida na cidade grande. A empatia é imediata. E Gorete Milagres explora muito bem o carisma que sua personagem tem. Todos adoram Filó.
A linha narrativa do espetáculo – se é que podemos assim chamar – se resume na tal da Filomena contando como veio e a que veio a esse mundo. Isto é, para trabalhar como uma condenada e nunca receber em dia. A vida da empregada doméstica não é tão engraçada, mas as caras e bocas da Filó é que salvam a coisa toda do fiasco. Mesmo quando o público – à vontade – sente-se no direito de interferir no espetáculo.
E aí é que se mostra a grandeza da atriz Gorete Milagres – ela consegue dominar e bem as coisas mesmo quando a platéia resolve fazer perguntas, algumas hilárias e outras dando a impressão de terem sido encomendadas pela produção do espetáculo. Seja o que for, Gorete segura a onda com bom humor. Aí é que está: a figura das empregadas domésticas engraçadas sempre vão ganhar atenção. É praxe, é certo como dois e dois são quatro.
Com sua Filomena, Gorete consegue engrossar a galeria. Mas a diferencia das Edileuzas (da engraçadíssima Cláudia Jimenez) e das Olímpias (que, vivida por Denise Fraga, por anos fez o público se curvar na peça ‘‘Trair e Coçar É Só Começar’’) da vida por um simples motivo: ela é um doce de criatura, um poço de candura, enfim, engraçada sem saber que é.
Todos querem ter a Filó fazendo a faxina nas casas porque ela é boa, confiável, ‘‘limpinha’’ e, sobretudo, um ser humano carente de conversa e emprego. Ignorante numas porque ela alerta, à sua maneira obviamente, sobre os perigos da Aids para quem não ‘‘encapa o bico do bule’’.
Durante uma hora e um quebradinhos, Gorete Milagres vai falando, falando, falando – por vezes algumas piadas caem no vazio. Algumas tiradas geniais pingam aqui, ali e acolá. Como a explicação da barriga grande: ‘‘É pobrema, vreme (verme), bicha, solitária.’’ E o porquê de não ter tirado a solitária de ‘50 metros’ da barriga?: ‘‘Solitária na vida, como eu, e solitária solitária, uma faz companhia para a outra.’’ Uau!!
O espetáculo ‘‘Filomena’’ é uma bobagem. Mas a Filomena é poderosa. Tão ou mais sábia que doutores sociólogos no poder.

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