Ô, psit!
Ô, psit!
O Carlito brasileiro não usa calças sanfonadas, nem equilibra um amarrotado chapéu coco na cabeça e muito menos faz malabarismos com uma bengala de junco. Mesmo assim, o humorista Renato Aragão não nega a influência que o cineasta inglês exerceu em sua carreira. A identificação foi tanta que em Bonga, o vagabundo, de 1969, o último dos três filmes em que atuou sozinho, Renato resolveu prestar um tributo ao genial vagabundo e recriou a clássica figura do andarilho solitário. Todos deveriam ver e rever os filmes do Chaplin. É uma obrigação de todo comediante, defende.
Obrigação ou não, a verdade é que o fascínio de Renato Aragão pelo genial vagabundo surtiu efeito. Dos 50 filmes nacionais de maior bilheteria nas décadas de 70 e 80, 19 foram protagonizados pelo célebre personagem criado pelo humorista, o abobalhado metido a esperto Didi Mocó. Autor de bordões como ô, psit! ou ô da poltrona!, Renato se orgulha em afirmar que, nos áureos tempos do quarteto, só perdeu o primeiro lugar de bilheteria para E.T., o extraterrestre, obra-prima de Steven Spielberg. Mas perdemos para um sujeito que não era nem deste mundo, gaba-se.
A filmografia de Os Trapalhões totaliza 38 filmes, realizados entre 1965, com Renato Aragão e Dedé Santana contracenando em Na onda do iê-iê-iê, até 1991, quando Os Trapalhões e a árvore da juventude, comemorou 25 anos de trajetória do quarteto, já sem Mauro Faccio Gonçalves, o Zacarias, falecido em 18 de março de 1990.
Robin brasileiroNão é por acaso que a lendária figura do nobre saxão, que rouba dos ricos para dar aos pobres, foi parodiada por Renato Aragão em dois de seus filmes: Robin Hood, o Trapalhão da floresta, de 1973, e O mistério de Robin Hood, de 1990. Por conta do reconhecimento de seu trabalho junto às crianças brasileiras, Renato aceitou o convite feito pela Organização das Nações Unidas para ser embaixador do Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância, em 1991. Acho que todo mundo que dispõe de uma certa popularidade deve se aproveitar disso para defender uma causa, acredita.
Na condição de embaixador do Unicef, Renato visitou recentemente Angola, onde testemunhou as condições miseráveis em que vivem as crianças que ficaram órfãs ou mutiladas em consequência da guerra civil, que já dura cerca de 20 anos. Durante os seis dias em que permaneceu na capital angolana, Luanda, Renato visitou hospitais e orfanatos da Cruz Vermelha e concedeu entrevistas, denunciando o perigo das minas que, segundo dados da ONU, deixa mutilados cerca de 100 angolanos por mês. Quem visita um país como Angola, não volta a mesma pessoa, afirma, emocionado.





