O protesto dos reprovados
Jackeline Seglin
Londrina
Arquivo FolhaLilian Almeida: A avaliação nos pareceu uma coisa bastante coerente. A Comissão tomou como base itens importantes, como público alvoEnquanto muita gente corre atrás de patrocínio para os projetos aprovados via Lei Municipal de Incentivo à Cultura, outras pessoas estão descontentes com o resultado final publicado pela Comissão de Avaliação de Projetos, no início do mês, em Londrina. O motivo é que seus projetos foram reprovados. O caso tem gerado polêmica e alguns empreendedores estão revoltados. Alguns deles procuraram a Folha na intenção de obter respostas. Descontentes com a avaliação, eles questionam as justificativas e critérios adotados pela Comissão.
O presidente da Fundação Mundo Verde e Amarelo, Idalto José de Almeida, não está nem um pouco contente com o resultado do edital, já que nenhum dos três projetos apresentados foi aprovado. Antes de procurar a imprensa, Idalto enviou um documento à Comissão manifestando sua tristeza pela não aprovação dos projetos e sugerindo a transformação da Comissão de Avaliação em Comissão de Orientação de Projetos, pondo fim nesta espécie de Tribunal da Santa Inquisição que não cabe para o mundo do terceiro milênio.
Segundo Idalto, com a nova comissão, os projetos deverão estar dentro dos critérios necessários no ato da inscrição, sendo aprovados automaticamente. Os projetos estarão submetidos ao que manda a Lei Municipal e à Comissão de Orientação, que terá como objetivo assessorar e monitorar os trabalhos, defende. O presidente da Fundação ainda frisa que o limite de recursos financeiros do município no ano da aprovação seria encerrado conforme fossem sendo apresentados os investidores.
Arquivo FolhaIdalto José de Almeida: sugestão de transformar a Comissão de Avaliação em Comissão de Orientação de Projetos
Os questionamentos de Idalto Almeida quanto à reprovação dos projetos da Fundação também têm como ponto principal a justificativa da comissão. Ele explica que um dos projetos reprovados, o Tô de Bem com a Vida, já havia sido aprovado em 1995 com o nome Companhia de Música e Dança Afro-Arte. A comissão não passou os critérios e não deixou nada claro, não explicou por que o mesmo projeto aprovado em 95 foi reprovado agora?, questiona. Ele reclama que os projetos já tinham patrocinadores e parceiros.
Idalto Almeida diz que a Fundação vai suspender provisoriamente os projetos culturais em Londrina. Assim, a Fundação passa a priorizar uma organização interna, no sentido de prepará-la para uma atuação não mais voltada só para Londrina.
O presidente da Fundação diz não querer fazer uma avaliação da atual comissão, apenas apresentar uma proposta. Eu acho que não existe neutralidade na comissão. São pessoas com conceitos fechados, o que não quer dizer que elas sejam tendenciosas.
Os três projetos apresentados pela Fundação tinham um orçamento de R$ 75 mil cada. As justificativas para a reprovação foram faltam elementos para uma análise mais detalhada do projeto e falta de clareza nos objetivos a que o mesmo se propõe. O projeto Globalização da Vida é um seminário que visa discutir o ser humano do Terceiro Milênio e o Feira Brasil é uma feira permanente de produção humana.
Critérios A produtora Christine Vianna apresentou sete projetos à Comissão, mas somente quatro foram aprovados, fato que a levou a fazer algumas considerações. Um dos projetos apresentados - uma coletânea de poemas de vários autores - não foi aprovado, segundo Christine, por falta de anuência dos poetas (declaração de direitos autorais assinada pelos 12 poetas). É estranho, porque os projetos Seis Peças de Mário Bortolotto - Volume 2 e Corações on the Rocks também não tinham anuência e foram aprovados..., alega.
Outro projeto reprovado é a revista dos 16 anos do grupo Cemitério de Automóveis. A justificativa desta vez foi que já havíamos realizado a revista no ano passado com recursos da Lei. Primeiro, que no ano passado foi realizada a edição dos 15 anos. E depois, o equívoco: a revista não foi feita com recursos da Lei e sim com a venda de espaço publicitário, explica.
O terceiro projeto reprovado, orçado em R$ 11 mil, foi a nova montagem do grupo Cemitério de Automóveis. A justificativa: custo benefício alto.
Christine Vianna diz não estar contra a Comissão e faz uma proposta: O que nós queremos é que a Comissão estabeleça critérios claros e que o edital contenha todos os pontos pelos quais ela vai se guiar. Um edital idôneo, sugere.
Momento especial O Festival Internacional de Londrina (Filo) teve somente parte do orçamento aprovado pela Lei. No total, eram R$ 1,5 milhão, mas a Comissão aprovou R$ 426.500,00. A diretora do Filo, Nitis Jacon, pondera e diz que com a sanção das alterações na lei, elevando o limite de contribuição para cultura, Londrina vive um momento especial. Todos devemos nos regozijar com a Câmara de Vereadores, o prefeito e a Secretaria da Cultura. No entanto, a situação gera algumas dificuldades. Com o aumento do limite, aumenta também o número de investidores para patrocinar os projetos, diz. Segundo Nitis, o município também tem que ter um limite, como no caso de Londrina, que teve um teto estabelecido pela Secretaria da Fazenda. Está se tentando adotar critérios. A solicitação de projetos foi num total de mais de R$ 6 milhões, mas a verba é menor. Isso á fato, observa. A diretora do Filo acredita que aos poucos tudo será ajustado, para que não haja equívocos e para que as pessoas compreendam melhor os critérios. O processo está se aperfeiçoando. Enquanto isso haverá pessoas descontentes.
Com dois projetos aprovados, a professora de música Lilian Almeida, diretora do Conservatório Municipal Carlos Gomes e sócia-proprietária da Vivarte Produções Culturais, acredita que a Comissão foi séria e competente ao avaliar os projetos. A avaliação nos pareceu uma coisa bastante coerente, porque tomou como base itens importantes, como público alvo. Além disso, a seriedade do trabalho na parte financeira do processo demonstra que a Comissão está atenta, diz. Os projetos aprovados foram Série Crystal Palace (R$ 74.696,00) e Grandes Orquestras (R$ 74.800,00). O importante é que agora essa lei sem dúvida vai dar um impulso ao movimento cultural de Londrina. É uma grande conquista!
Faltou definição A professora Áurea Palhano é a responsável pelo Projeto Carnaval, um dos aprovados pela Lei Municipal. A Comissão de Avaliação aprovou um orçamento de R$ 26 mil para a realização de um CD e três concertos de um grupo de música contemporânea. Segundo Áurea, o objetivo do projeto é divulgar este trabalho, pouco conhecido, e assim começar a trabalhar a formação de um público. Acho que este tipo de arte não teria condições de se viabilizar sem os recursos da lei. A lei de incentivo, na minha opinião, deve ser destinada a projetos não viáveis comercialmente, com artistas que fazem uma arte não-comercial, defende.
Com relação à polêmica levantada pelos empreendedores, Áurea acha que a situação deve ser melhor avaliada. Tinha gente com patrocínio garantido e que teve o projeto reprovado. Essas pessoas têm que avaliar se os motivos da revolta são apenas financeiros ou se realmente o projeto era culturalmente importante, argumenta.
Apesar do projeto aprovado, Áurea Palhano avalia que faltou uma definição mais concreta da Comissão. Os critérios deveriam ser mais claros já no edital. Acho que a Comissão se esforçou para melhorar o processo, mas houve falhas. Para ela, não existiu a intenção de prejudicar ninguém, mas apesar disso, coisas boas não foram aprovadas.
A Comissão de Avaliação deve se reunir nos próximos dias para discutir o assunto.





