Toda época de transformações gera dissidentes. Toda celebração eufórica costuma atrair desmancha-prazeres. Na nova ordem mundial, o pensador francês Paul Virilio é um dos que mais têm atacado os descaminhos da ciência e da tecnologia contemporâneas.
‘‘A Bomba Informática’’ (Editora Estação Liberdade), seu mais recente livro lançado no Brasil, traz 14 artigos publicados em jornais de língua alemã entre 1996 e 1998. A exemplo do título, os textos reunidos caracterizam-se pela violência verbal disparando aqui contra a engenharia genética, ali contra a robótica e acolá contra a Internet.
Virilio, 68 anos, é arquiteto, urbanista e filósofo. Projetou-se mundialmente com a publicação do volume ‘‘Velocidade e Política’’. Especializou-se em questões estratégicas com análises agudas sobre os meios de comunicação, as novas auto-estradas informacionais e cibernéticas.
Para ele, o desenvolvimento da tecnologia alterou os mais básicos elementos de nossa percepção – o tempo e o espaço – e caberia aos intelectuais denunciar as consequências desse fenômeno. Na linha de Jean Baudrillard, outro teórico francês de peso, Virilio examina a crise de visibilidade do mundo moderno partindo da complicada tese da ‘‘desrealização da realidade’’ – ou a substituição do real por sua representação, a telerealidade.
‘‘Nada acontece, tudo se passa’’ – resume ele numa frase de efeito. Segundo o pensador, o mundo informatizado da globalização aponta menos para o paraíso virtual festejado pela mídia do que para o risco de uma tragédia planetária. ‘‘Depois da primeira bomba, a bomba atômica capaz de desintegrar a matéria pela energia da radioatividade, surge neste fim de milênio o espectro da segunda bomba, a bomba informática, capaz de desintegrar a paz das nações pela interatividade da informação. Se a interatividade for para a informação o que a radioatividade é para a energia, então estamos diante da temível emergência do acidente dos acidentes’’ – escreve.
E continua: ‘‘A divulgação global da informação, necessária à era do grande mercado planetário, será semelhante, em muitos aspectos, às práticas e à exploração da informação militar, assim como à propaganda política e aos seus abusos.’’ E acrescenta: ‘‘É impossível distinguir claramente a guerra econômica da guerra informática, uma vez que se trata de uma mesma ambição hegemônica de tornar interativos os intercâmbios comerciais e militares.’’
Ao longo das páginas, nem sempre Virilio é convincente, talvez por inflamar o discurso com pinceladas alucinantes sem se alongar ou didatizar suas percepções e conceitos. O autor ataca incansavelmente a nova ordem virtual, que estaria criando uma sociedade de controle. Lembra o caso fartamente noticiado de June Houston, uma norte-americana que espalhou câmeras de vídeo por todos os cômodos da casa podendo ser flagrada 24 hora por dia pela Internet.
O que poderia sugerir apenas um relato curioso de voyeurismo, revela para Virilio o surgimento de um novo e sinistro tipo de televisão, que trataria não mais de divertir ou informar mas de invadir e escancarar o espaço doméstico privado. O fenômeno teria duas implicações. Por um lado, a submissão a um mercado do olhar, que com a mundialização da economia exigiria uma superexposição integral não apenas dos lugares – como ontem com a televigilância das estradas – mas ainda das pessoas, de seu comportamento, de suas ações e de suas reações íntimas.
Por outro lado, estaríamos entrando no reino da delação ótica, ‘‘depois da delação ao pé-do-ouvido, da maledicência e da calúnia, dos danos sociais do boato, do telefone gratuito para delatores ou das escutas telefônicas de suspeitos.’’ No primeiro texto da coletânea, Virilio cerra fogo contra o pragmatismo dos cientistas, mergulhados – segundo ele – num aventureirismo tecnológico.
‘‘Se a verdade é o que é passível de verificação, a verdade da ciência contemporânea é menos a magnitude de um progresso que a extensão das catástrofes técnicas que provoca’’ – diz. E prossegue: ‘‘Impelida durante quase meio século à corrida armamentista da era da dissuasão entre o Leste e o Ocidente, a ciência evolui na perspectiva única da busca de desempenhos limite, em detrimento da descoberta de uma verdade coerente e útil à humanidade. Tendo se tornado progressivamente tecnociência, produto da confusão inevitável entre instrumento operatório e pesquisa exploratória, a ciência moderna afastou-se de seus fundamentos filosóficos e se extraviou.’’
Paul Virilio traz a peste. É o profeta do apocalipse cibernético.

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