O profeta do Brasil
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sexta-feira, 01 de fevereiro de 2013
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
Há uma linhagem de artistas singulares no Brasil, cuja obra permanece desconhecida do grande público, apesar de seu apelo pop. O cantor, compositor e escritor Jorge Mautner faz parte do clã. Cultuado desde os anos 60, ele tem sua trajetória registrada no documentário "O Filho do Holocausto", codirigido por Pedro Bial e Heitor D´ Alincourt.
O filme estreia hoje no circuito exibidor depois de ser apresentado em festivais nacionais e internacionais. Em Londrina, entra em cartaz numa sala do Cine Royal Plaza Shopping. Mautner despontou primeiramente na literatura ao publicar o livro "O Deus da Chuva e da Morte", com o qual conquistou o Troféu Jabuti em 1963.
Ali já expunha suas reflexões libertárias e visionárias sobre o Brasil. Publicou outros livros depois, sempre pautados pela originalidade de ideias e inspirados na vanguarda do pensamento mundial e especialmente brasileiro. Como músico, gravou discos inclassificáveis fundindo samba, rock, maracatu e outros ritmos. Durante anos, foi chamado de "maldito", rótulo que sempre acompanhou artistas festejados pela parcela mais intelectualizada do público mas ignorados pelo grande público. A seguir, leia trechos da entrevista que Mautner concedeu ontem por telefone, do Rio de Janeiro.
Você já acompanhou a receptividade do filme em festivais, não é? Que expectativa tem agora com a estreia nacional no circuito exibidor?
É uma incógnita prever como será a estreia nacional nas salas. Numa sessão em Londres (Inglaterra), as pessoas gostaram e aplaudiram muito. No exterior, o documentário está sendo distribuído com o título "O profeta do Brasil". Por causa dele, recebi convites de várias universidades para dar palestras sobre o País. O interessante é que, apesar de ser um documentário, ele é um filme em si no sentido de parecer uma obra de ficção ao contar minha história desde a infância. Há também o atrativo da música, da presença de Caetano e Gil.
Há quem diga que o documentário vai resgatar a boa relação das novas gerações com a sua obra, como ocorria nos anos 80. Você concorda?
Meu público sempre foi a garotada. E hoje, com a ajuda da internet, a juventude já vem preparada para assimilar minhas ideias por causa dos neurônios saltitantes. São os neurônios capazes de saltar quando um novo fenômeno acontece. Viajo muito pelo Brasil visitando os Pontos de Cultura e percebo que as pessoas têm muitas informações. O que eu falava nos anos 50 se materializou. A mitologia do kaos, a união dos opostos, está acontecendo hoje em sua plenitude. Somos uma amálgama, o país-continente mais fértil do planeta. José Bonifácio de Andrade Silva já dizia isso em 1872. Vamos começar uma série de shows. Amanhã [hoje] vou me apresentar com a Orquestra Imperial no Rio de Janeiro.
Durante muitos anos, seu nome foi invariavelmente acompanhado pelo adjetivo "maldito" na imprensa. Isso o incomodava?
Jesus de Nazaré diz que "mais vale uma ovelha desgarrada do rebanho que uma ovelha que faça parte dele". O rótulo vinha do teor trágico, mitológico e muitas vezes incompreendido de minha obra existencialista e dotada de rebeldia comportamental. Serviu também como publicidade para autores como Rimbaud, Artaud e outros todos transgressores . Comecei a escrever meu primeiro livro ("Deus da Chuva e da Morte") em 1956, que terminei em 1958 e recebeu o Prêmio Jabuti em 1962. Já naquela época, todo autor que se prezasse tinha que ser maldito porque o contrário era ser chapa-branca.
Você costuma dizer que "ou o mundo se brasilifica ou se tornará nazista". Não há um excesso de orgulho nacional na afirmação?
O mundo não bebe água, nem respira sem o Brasil. Nossa originalidade é importante para a sobrevivência da espécie. Todos os povos estão representados aqui. Somos acolhedores, não temos medo do estrangeiro. Nossa mitologia foi construída pelos índios tupis-guaranis, para quem o desconhecido é o mistério, o estranho, o forasteiro. Em outros países, o estrangeiro é olhado com desconfiança e por vezes é até estraçalhado. Aqui não. Para nossos indígenas, o desconhecido é o máximo. Eles são pré-taoístas. Fomos formados também pelos portugueses que, durante a Idade Média, acolheram os Templários perseguidos como heréticos pelo Papado e dizimados em toda a Europa. Portugal os acolheu e mudou o nome para Cavaleiros da Ordem de Cristo, dando inicio à Escola de Sagres. Pedro Álvares de Cabral, Vasco da Gama, todos esses navegadores, eram Cavaleiros de Cristo e trouxeram para cá o espírito de irmandade e diversidade. Há ainda nossos ancestrais africanos com sua mitologia, a reinvenção do Candomblé e da Umbanda, que chegou a criar um orixá samurai a partir de influências dos imigrantes japoneses instalados no bairro da Liberdade em São Paulo. Veja que não temos ódios raciais ou étnicos. Aquele norueguês que assassinou vários jovens anos atrás, citou em seus escritos que o Brasil era uma influência negativa justamente pelo modo de ser pacifista de seu povo. Essa característica é nossa grande mensagem e missão para o século 21. Por isso, as Olímpiadas, a Copa e outros grandes eventos serão realizados em nosso País.
Você foi convidado para ser consultor do Ministério do Esporte. Qual é sua função na pasta?
É justamente para irradiar essas ideias através de manifestações artísticas durante as competições esportivas. Vamos mostrar a produção musical brasileira antes e depois dos jogos, apresentá-las em toda a sua pluralidade, com todos os ritmos e estilos.
Como estão as gravações do programa "Oncotô", que você produz e apresenta na TV Brasil?
Temos viajado pelo Brasil reinterpretando o País segundo José Bonifácio. Fizemos edições sobre os Estados do Sul e agora vamos para a Região Centro-Oeste. Com a repercussão do documentário no exterior, pretendemos levar vídeos do programa para universidades estrangeiras.


