Médiuns costumam concentrar-se ante um copo com água. Em ‘‘O Profeta’’, o copo tem água e açúcar. Muito açúcar. A nova trama das seis exagera na dose de drama e sentimentalismo. O ‘‘remake’’ da obra original de Ivani Ribeiro procura ser fiel à primeira versão e segue a clássica estrutura do mocinho que enfrenta inúmeras dificuldades para alcançar a felicidade. Mas essa lealdade à novela exibida em 1977 pela Tupi tem seu preço. Quase trinta anos depois, a história parece envelhecida, vinda de uma época em que as pessoas acreditavam em contos de fada e amores perfeitos. O que salva a adaptação é exatamente o que não existia no passado: o humor acrescido por Duca Rachid e Thelma Guedes, responsáveis pela adaptação, que areja uma trama com cheiro de guardado.
  É óbvio que a presença de personagens e núcleos cômicos não poderiam faltar em um texto supervisionado por Walcyr Carrasco. Mas, no caso de ‘‘O Profeta’’, essa parece ser a única alternativa para que o folhetim não mergulhe de vez no dramalhão. O sofrimento que Marcos, de Thiago Fragoso, enfrenta por causa de suas premonições e o clima de romance que paira no ar quando ele se encontra com a amada Sônia, interpretada por Paola Oliveira beiram o ridículo. As cenas têm uma carga emocional tão forçada - com texto e atuações piegas, diga-se de passagem - que, em vez de emocionar, chegam a constranger.
  Thiago Fragoso não tem um pingo de naturalidade. Faz caras e bocas demais, tem a voz impostada demais e nem seu rosto bonito o redime de uma atuação artificial demais. Malvino Salvador, por sua vez, é um dos antagonistas mais comedidos dos últimos tempos. Seu Camilo chega a ser tímido, característica raramente encontrada em um vilão. Ele tem beleza, presença, boa imagem, mas está encabulado. Fernanda Souza é até agora a única intérprete de destaque, como a complexada Carola, que garante as melhores cenas da novela. A atriz é segura, defende sua problemática personagem com equilíbrio e sequer resvala na caricatura que freqüentemente domina esses papéis.
  O caprichado figurino e a bela fotografia são as principais atrações de ‘‘O Profeta’’, que estreou com uma média de audiência de 36 pontos, um a mais que ‘‘Sinhá Moça’’. O colorido das cenas nada deve à antecessora. Em contrapartida, o ‘‘croma key’’, efeito que projeta a imagem dos atores sobre imagens de fundo, é desagradavelmente visível. A abertura da novela, com imagens do rosto dos protagonistas fundidas a figuras disformes e em movimento - metáfora de espíritos - é igualmente grosseira.
  Exageros e escorregões à parte, ‘‘O Profeta’’ só vai conseguir cativar os amantes incondicionais de romances ingênuos e açucarados. Até a trilha sonora, que conta mais uma vez com Ivo Pessoa assinando uma canção - o cantor já soltou sua voz na última novela escrita por Walcyr Carrasco ‘‘Alma Gêmea’’ - ajuda a ‘‘adoçar’’ o enredo.

mockup