Arrigo revelou segredos sobre o perobal. Numa aula-espetáculo para alunos do Cursos de Música, na terça-feira, na Universidade Estadual de Londrina, Arrigo Barnabé revelou fragmentos de seu particular e desconhecido processo de criação. Os alunos se depararam com um professor de precisão matemática. Aos futuros músicos, o tom confessional da aula aproximou os ouvidos pensantes. Sem formação em orquestração, Arrigo disse que foi aprendendo sozinho. Instrospectivo, o músico londrinense sorri pouco, apenas quando estritamente necessário. No Festival de Música de Londrina, que começa dia 7 de julho, ele ministra oficina abordando técnicas seriais de composição e não está previsto nenhum show com o cantor.
Ele ainda se mostrou ressentido com certos setores da cidade, que simplesmente o ignoraram, enquanto o nome de extrema musicalidade ganhava o País. Arrigo quer ser acolhido por Londrina e compartilhar conhecimento, como ficou explícito durante a aula. Enumera as vezes em que aportou como artista em sua terra natal. Em 1988, num workshop relâmpago de duas horas; depois se apresentou no Cine-Teatro Ouro Verde, em 1992. Somente em 1996 recebeu o convite para participar do Festival de Música, mas um acidente fatal com a filha do músico Paulo Braga o impediu.
Nem depois do sucesso nacional da valsa ‘‘Londrina’’, no MPB Shell, Festival da Rede Globo, em 1981, as pessoas na cidade o reconheceram como músico com proposta. ‘‘Meu contato com a cidade diminuiu muito. Acho isso muito estranho. Em 1982, toquei em Berlim e aqui nada’’, desabafa. Até hoje, ele realizou oito apresentações em Londrina.
Para a música brasileira, Arrigo diz que sua contribuição mais importante se deu na interseção com a música erudita. Atualmente, está escrevendo a ópera ‘‘O Homem dos Crocodilos’’, com libreto do argentino Alberto Munhoz. O argumento tomou corpo em 1994 e conta a história de um compositor em crise que busca auxílio na psicanálise. O cara entra numa piração quando passa a acreditar que a tampa do piano vai mordê-lo enquanto executa uma peça. ‘‘O Homem dos Crocodilos’’ será responsável pela união vocal de duas potentes intérpretes: Celine Imbert e Cida Moreira. Mais uma vez o trabalho do londrinense revela o caráter transitivo de sua criação, que foi rotulado como vanguarda da MPB.
Esse estigma se deu pelo uso do dodecafonismo – utilização das 12 notas da escola cromática, que Schoenberg organizou em série como base para composição –, que durante algum tempo serviu como camisa de força para o compositor. Arrigo prefere a sombra frondosa da música erudita, mas aceita o batismo de vanguardista . ‘‘Diluo as conquistas da música erudita, dou uma facilitada. Clara Crocodilo tem material sinfônico. Por muito tempo, fiquei frustrado querendo ser popular’’, diz, retomando o tom confessional. Nessa tentativa veio a música de sucesso ‘‘Suspeitos’’.
Diante do impasse entre popular e erudito, um pergunta pertinente de um aluno. ‘‘Arrigo, você se considera erudito, mesmo fazendo canção?’’. A resposta foi afirmativa, com o adendo de que são difíceis de serem cantadas. Difícil mesmo é encontrar um compartimento para encaixar a sonoridade de Arrigo Barnabé. Num mergulho interior, ele definiu-se como um cara que faz arte com cultura de massa. Arrigo=densidade sonora+elementos da cultura popular.
O compositor aproveitou para descartar ilusões em seu trabalho. ‘‘Não existe perspectivas na MPB, demorei muito tempo para perceber isso. A música brasileira se resume a canções e compor exige outro tipo de reflexão’’, defendeu, diante de uma platéia duvidosa. Para ele, Caetano Veloso trabalha com uma paródia do iê-iê-iê. Emblemático, Arrigo afirma que a linha evolutiva da música popular aconteceu durante um tempo, mas que isso também foi uma ilusão. ‘‘Dentro dessa ilusão, acreditamos que o atonalismo seria um caminho’’, prossegue. A agressividade musical e a iconoclastia sonora foram resultados de um trabalho de forma modular, influenciado pelas propostas do maestro Aylton Escobar, de Augusto de Campos e o livro ‘‘Balanço da Bossa’’. Stravinsky e Villa-Lobos também receberam créditos.
Em Londrina, Arrigo Barnabé brindou os ouvintes com uma obra inacabada e inédita, composta em 1995 que leva o nome de ‘‘Algumas Idéias Sobre Macbeth’’, uma peça em quatro movimentos que exige um quarteto de cordas, dois pianos, três percussionistas e uma banda de rock. Enquanto a obra era apreciada pelos alunos, Arrigo Barnabé segurou o queixo, com o olhar perdido obre a mesa, revelando uma tristeza estranha. Ás vezes, apenas movimentava o dedo indicador e continuava pensativo. Londrina que aguarde o crocodilo Arrigo Barnabé.

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