São Paulo, 07 (AE) - A história da ópera foi escrita e reescrita inúmeras vezes, mas a bibliografia brasileira sobre o assunto é miserável, o que de resto não surpreende num País em que o canto lírico é pouco popular. Uma coleção vai mudar esse panorama e certamente contribuir para introduzir leitores no universo de Verdi e Wagner. O primeiro dos 15 volumes de "A História da àpera", coleção escrita pelo crítico musical Lauro Machado Coelho, será lançado na segunda-feira (10), a partir das 19h30, com um recital de árias francesas no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. Participam do evento, com entrada franca, as cantoras Adélia Issa, Luísa de Moura e Rosana Lamosa, entre outros grandes nomes da ópera brasileira.
Pode parecer estranho que o primeiro livro da série seja dedicado à ópera francesa, e não aos italianos, responsáveis pelo advento do gênero, mas há uma explicação para isso: o volume da ópera francesa - na verdade, o sétimo da série - foi o primeiro a ser concluído pelo crítico, que há dez anos pesquisa a história da ópera em jornais, revistas, discos e, agora, pela Internet, onde fez bons amigos. Tão bons amigos que os checos da Fundação Martinu lhe abriram as portas para pesquisar a vida e a obra de compositores como Zdenek Fibich (1850-1900), considerado o autor da melhor ópera trágica checa do século passado, "A Noiva de Messina". Para todos - Os checos vão ganhar um volume só para eles, assim como os alemães e os russos. Os italianos, claro, ganham dois: um que cobre dos barrocos até 1870 e outro que chega aos contemporâneos. A música de vanguarda também não foi esquecida, assim como derivados do gênero, ou seja, a ópera-rock, inventada por Peter Towshend, guitarrista do grupo The Who, e desenvolvida por Andrew Lloyd Webber (Jesus Christ Superstar e Evita). Machado Coelho, ex-diretor do Teatro Municipal, prova que nunca alimentou preconceitos musicais. Só não incluiu as operetas na coleção, mas ainda pretende escrever um volume à parte no futuro.
Projetos o ex-diretor do Teatro Municipal tem muitos, mas quando o assunto é música erudita os editores fazem ouvidos de mouco. Lauro Machado Coelho procurou muitos deles e recebeu como resposta ao projeto da coleção um sonoro não. O mais educado sugeriu que ele fizesse por menos, que reunisse tudo num só volume. O crítico recusou a oferta. Reconhecido pela seriedade de seu trabalho como jornalista e professor, não queria fazer liquidação da música erudita. Felizmente, o editor Jacó Guinsburg, da Perspectiva, adotou a idéia da coleção, que não tem prazo de conclusão.
"Estou constantemente revisando os originais e acrescentando comentários sobre as últimas gravações, porque uma coleção como essa tem de oferecer ao leitor uma discografia comentada", justifica. Além disso, há volumes descomunais, como o dedicado à ópera romântica italiana, que exigem fôlego e tempo de pesquisa. Compositores - Alguns compositores, por razões óbvias, ganham volumes individuais, entre eles Mozart, Verdi, Wagner e Richard Strauss - este último concluído. Depois de Strauss virá a ópera de vanguarda e os compositores que adotaram a linguagem atonal. "Esse volume deverá sair só no próximo século, fazendo, quem sabe, um balanço da ópera em nosso tempo", prevê. Verismo - A coleção não persegue a polêmica, mas deverá provocar o orgulho patriótico dos italianos. Machado Coelho vai pôr o compositor campineiro Carlos Gomes no segundo volume dedicado à ópera italiana, classificando o autor de "O Guarani" como precursor do verismo, o que, para os italianos, deverá parecer ofensa ou provocação. O argumento do crítico: a "Gioconda" de Ponchielli é posterior à "Fosca" do brasileiro. Assim, a cantora de baladas criada por Ponchielli não representa mais o ano zero do verismo, segundo a coleção.
O crítico também deslocou o alemão Haendel para o primeiro volume dos italianos. "Todos os libretos de suas óperas são em italiano, porque pertencem a uma época em que o modelo italiano era hegemônico", justifica. Observações como essa revelam a origem didática de um projeto ambicioso como o da editora Perspectiva. De fato, admite o crítico, ele começou a ser esboçado quando ministrou um curso de história da ópera na Oficina Cultural Oswald de Andrade, então chamada de Três Rios, entre 1988 e 1990. O curso estava programado para durar três meses. Durou três anos e foi acompanhado, do começo ao fim, por 30 dedicados alunos, que hoje devem saber mais sobre ópera do que o conde de Harewood. História - Apesar de ter formado outros especialistas, Lauro Machado Coelho realiza um trabalho solitário. Ele até pensou em colaboradores, mas um projeto como esse exige do autor concentração e afirmação ideológica. "É impossível desconsiderar o papel que a guerra franco-prussiana e o sentimento antigermânico tiveram na resistência à ópera wagneriana na França", cita o crítico como exemplo, observando que o trabalho de pesquisa não desprezou o contexto histórico em que as óperas foram produzidas.
Outro ponto fundamental na elaboração do projeto foi a linguagem. Como jornalista que tem 25 anos prestados à música, Lauro Machado Coelho fez da simplicidade uma bandeira. Não quis escrever uma coleção para especialistas que dominam um código híbrido e cifrado. Democracia - Será uma coleção democrática para divulgar o que de melhor se fez em ópera nos quatro últimos séculos, de Monteverdi a Hans Werner Henze, sempre indicando ao leitor o que ouvir desses compositores e comparando gravações históricas com os mais novos registros. Entre eles, o leitor já pode esperar um estudo acurado da recente gravação de Boris Godunov de Mussorgski por Valery Gergiev. "Comparar o novo álbum, que traz as duas versões da ópera, mostra, por exemplo, que a primeira delas já era muito revolucionária", adianta o crítico. Mais comentários na coleção que sai do forno na próxima semana.

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