São Paulo, 19 (AE) - Tem sido muito boa a recepção na França de "O Primeiro Dia", de Daniela Thomas e Walter Salles. O longa acaba de ser lançado em Paris, depois de ter passado na TV. "Francês gosta mesmo de cinema: o filme foi para a sala escura mesmo após ter passado cinco vezes no canal de televisão Arte", alegra-se Salles. De fato, há motivo para comemorar: trata-se de uma experiência bem diferente da que tiveram produções brasileiras que estrearam primeiro na TV e só depois seguiram para o cinema. Basta lembrar de "Dias Melhores Virão"
de Cacá Diegues, e, mais recentemente, "Ed Mort", de Alain Fresnot, que por terem sido exibidos antes na TV sofreram boicote dos exibidores nacionais.
Mas a estréia comercial de "O Primeiro Dia" no país mais cinéfilo do mundo não é o único motivo de satisfação para os realizadores. É que o filme foi recebido com raro entusiasmo pela exigente crítica francesa. Parênteses: na França, crítico sério não detona filme sem motivo; mas também não fica passando a mão na cabeça de ninguém. Tanto é assim que, alguns cineastas, liderados pelo diretor Patrice Leconte (Um Homem Muito Esquisito e O Marido da Cabeleireira), moveram campanha contra o que consideraram a atitude destrutiva dos críticos em relação ao cinema francês.
Essa mesma crítica, pouco inclinada à complacência, cobriu de elogios "O Primeiro Dia". O filme, recorde-se, faz parte de um projeto coletivo da "Arte O Ano 2000 Visto por..."
que reuniu cineastas do mundo todo. A exigência única era que as histórias fossem ambientadas no réveillon do ano 2000. Salles e Daniela construíram uma trama na qual uma moça desesperada de classe média (Fernanda Torres) vive um efêmero momento de epifania com um bandido que acabara de matar seu melhor amigo (Luiz Carlos Vasconcellos). O jornal "Libération" (um dos acusados por Leconte de querer destruir o cinema francês) fala que "a simplicidade rugosa dos planos, o jogo febril de Fernanda Torres e Luiz Carlos Vasconcellos participam do sucesso de um filme que seus autores quiseram claustrofóbico". E acrescenta: "Seremos portanto privados das imagens de cartão-postal de um Brasil sensual em proveito de uma narrativa tensa e de uma violência trágica".
No "Le Monde" (outro que participa da "conspiração" denunciada por Leconte), lê-se que o filme trabalha com o encontro entre dois gêneros cinematográficos, o thriller e o drama sentimental, e que a combinação dos recursos de cada gênero dá a ele uma força particular. Não são frases ou idéias pinçadas fora de contexto. O tom geral das duas resenhas é mesmo extremamante positivo.

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