O que um músico mais gostaria de ganhar no seu aniversário? Sem medo de errar, no caso de Francis Hime, o melhor presente é sempre ''mais música''.
Para comemorar os 70 anos, completados recentemente, o compositor lança um álbum duplo que traz um CD de inéditas e outro de piano solo com as trilhas de cinema compostas por ele. ''De certa maneira, guardo a impressão de que procurei, talvez inconscientemente, uma espécie de síntese de meu trabalho: de um lado o CD com quase todas as músicas inéditas, compostas com vários parceiros, como gosto de fazer, indo do mais frequente, Geraldo Carneiro, passando por outros queridos como Joyce, Olivia, Paulinho Pinheiro. De outro, um CD instrumental, o primeiro de minha carreira como pianista''.
O CD de inéditas se chama O Tempo das Palavras. E começa com um samba. Francis Hime continua cantando o morro, mas com uma outra ótica. Uma visão carioca, poética, esperançosa mas realista. ''Adrenalina'' tem uma levada chic, refinada e passa uma visão que poucos enxergam e poucos ouvem sobre o Rio de Janeiro.
A parceria de longa data com Geraldo Carneiro fez de ''Existe um Céu'' um samba-canção que transporta o ouvinte em pores de sol e reflexões sobre o amor e finalmente acaba em blues. A afinidade com Carneiro é responsável pelas canções mais românticas do disco. ''Estrela da Manhã'' é um choro chorado no piano de Hime. É com o velho amigo que ele fecha o trabalho, ''O Tempo das Palavras'', uma marcha rancho, ritmo que quase ninguém mais grava.
Com a mulher, Olivia Hime, o eterno movimento da paixão, ''Maré'', música feita em ondas de mar, com participação de Monica Salmaso. A valsa lenta e triste tem no vai e vem das ondas o andamento característico dos arranjos do compositor.
Com Edu Lobo, Hime fez um bolero: ''O Sim Pelo Não''.
Já ''Rádio Na Cabeça'' é um retrato dos tempos modernos, a cacofonia de sons que ensurdecem, enlouquecem. ''Esgota a paciência de qualquer cristão''. Uma das letras mais instigantes do disco.
De volta à valsa, ''O Amor Perdido'' expõe a técnica do maestro. A gravação feita sem metrônomo cria um efeito muito pessoal - as pausas do compositor. Silêncios que fazem parte da canção.
O disco tem ainda ''Há Controvérsias'', primeira parceria com Paulinho Moska, um seis por oito com metais que lembram música latina. ''Tudo na vida é lição/Nada é perdido/Que o amor ensina preencher''.
Para o disco instrumental, Imagem, Hime fez uma seleção de 25 trilhas de filmes musicados por ele: Dona Flor e seus Dois Maridos, O Homem que Comprou o Mundo, A Estrela Sobe, Um Homem Célebre, A Noiva da Cidade, Lição de Amor, Marcados para Viver e Marília e Marina. ''Estes arranjos também refletem as lembranças que trago desses filmes, dos sentimentos dos seus personagens, da memória de determinadas cenas, como se eu tecesse musicalmente as sequências'', diz.
''Nesta comemoração, homenageio nossos grandes cineastas, a habilidade única de nossos músicos e a força transfomadora das palavras, sempre a partir do meu piano. Era o maior presente que eu podia me dar'', confessa Hime. Era também o maior presente que ele podia dar aos fãs.

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