O premiado "Próxima Parada Wonderland" estréia amanhã
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quarta-feira, 24 de março de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 25 (AE) - Prêmios não têm faltado para "Próxima Parada Wonderland". O filme de Brad Anderson foi premiado nos Festivais de Sundance e Deauville e também foi um dos preferidos do público na Mostra Rio do ano passado. Estréia amanhã (26) na cidade. Representa o charme da produção realmente independente. Para o espectador brasileiro tem um atrativo todo especial: a trilha com hits da bossa nova, que o cineasta selecionou para ilustrar seu conceito de saudade. É só sentar-se na poltrona e relaxar. O prazer é garantido.
Não que seja o melhor filme do mundo. Não é, mas Anderson conta sua história com graça, permeando-a de observações inteligentes. O cinema contou muitas histórias de amantes que se encontram acidentalmente. Os estranhos que se conhecem por acidente fornecem, mesmo, o material romântico hollywoodiano por excelência. As pessoas conhecem-se e, a partir daí, surgem os inevitáveis incidentes que selam a aproximação ou a distância. Anderson quis brincar com essa fórmula.
Erin é a protagonista. Quando o filme começa, ela leva o fora do namorado. Sem coragem de dizer o que sente e pensa, ele grava um vídeo que Erin verá mais tarde. Logo no começo, ela pega o metrô. Chega a uma parada e o diretor a focaliza no primeiro plano, dentro do trem, mas concentra o foco num rapaz do lado de fora. A partir daí, Anderson acompanha paralelamente as histórias dos dois. Reviravoltas, situações cômicas e brigas conjugais ocorrem antes mesmo de os amantes se conhecerem. Só no fim é que Erin e Alan se encontram.
Erin é enfermeira. Após o fora do namorado politicamente correto, convence-se de que não conseguirá encontrar um homem interessante e sensível. A mãe publica um anúncio de jornal em seu nome. Chovem candidatos. Entre eles vai o irmão de Alan. São algumas das partes mais divertidas do filme. Tocam em um dos temas essenciais de "Próxima Parada Wonderland": as máscaras que as pessoas usam, como se escondem e agem absurdamente quando tentam cortejar alguém. Alan é bombeiro e quer livrar-se das dívidas do pai para assumir sua paixão: ser um biólogo marinho. Numa cena ele está dentro do aquário, olha para fora e vê, entre outras pessoas, Erin.
A intenção do filme é brincar com os temas do destino e da sorte, discutindo se há mesmo uma força inexorável que aproxima as pessoas ou se tudo na vida - amores, amizades, ligações - não é apenas o resultado de uma série de acasos, acidentes e eventos caóticos. A música do acaso: o cinema de Anderson tem algo a ver com a literatura de Paul Auster.
É um filme simpático, que se desenvolve num naturalismo envolvente. É como se Anderson estivesse fazendo documentários sobre os atores, de tal maneira Hope Davis e Alan Gelfant se "colam" aos personagens e se comportam com naturalidade diante da câmera. É uma lição que vem de Jean-Luc Godard. Anderson, com certeza, viu "Uma Mulher É uma Mulher". Seu método consiste em amarrar bem o roteiro, mas deixando espaço para improvisações.
Nas cenas de conversas de bar, por exemplo, não havia uma linha escrita de diálogo. Ele deixava os atores livres, apenas lhes fornecendo um ponto de partida. Isso significava filmar mais, de certa forma uma filmagem muito mais caótica, mas Anderson prefere destacar que é um método mais criativo. Como ele é seu montador, sabe como aproveitar esse material.
Simultaneidade, sincronicidade e jogo de perspectivas simultâneas: Anderson filtra Auster pelo jovem Godard, não sendo descabido dizer que há um quê de Jim Jarmusch no seu cinema (o Jarmusch de Mistery Train e Uma Noite sobre a Terra). Um filme que se refere a tanta gente boa só poderia mesmo ser um programa recomendável.


