Arinoauro/TV PressAs primeiras fases das novelas quase sempre superam o restante da tramaNão é por acaso que os primeiros capítulos de uma novela costumam ser infinitamente superiores ao restante da trama. Afinal, os autores e diretores optam por dar um tratamento de minissérie aos capítulos iniciais de uma novela exatamente para prender a atenção imediata de um espectador. Nessa hora, as emissoras abrem os cofres.
Prova maior disso é o custo de um capítulo inicial de uma novela da Globo, que usa e abusa de requintes glamourosos, que vão desde a reconstituição de época até viagens do elenco ao exterior. Em geral, cada capítulo inicial não sai por menos de R$ 200 mil, mais do que o dobro dos capítulos restantes, que custam aproximadamente R$ 90 mil. Isto significa que uma produção global, com uma média de 180 capítulos, custa em torno de R$ 18 milhões. E que mais de 10% deste valor é gasto nas primeiras duas semanas.
Em ‘‘A indomada’’, a história não foi diferente. Os espectadores verão, a partir desta segunda-feira, uma novela bem diferente da que assistiram na primeira semana. Nos seis capítulos anteriores, os autores Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares desenvolveram duas fases da trama que tiveram requintes de superprodução. ‘‘Eu só escrevo. Não quero nem saber do orçamento’’- conta Aguinaldo.
A grande soma de dinheiro envolvida, porém, não é a única responsável pelo sucesso dos capítulos iniciais das dramaturgias. Em ‘‘O Rei do Gado’’, o autor Benedito Ruy Barbosa contou, nos sete capítulos iniciais, com uma produção refinada e a participação de atores carismáticos como Vera Fischer, Eva Wilma, Tarcísio Meira e a voluptuosa Letícia Spiller. O sucesso desses atores durante a primeira semana de exibição foi tão superior ao restante da trama que chegou a causar irritação em Benedito. ‘‘Ninguém entende que tivemos dois meses para gravar sete capítulos e depois tive de escrever um capítulo por dia’’ - justifica o autor. A repercussão destes primeiros capítulos foi tamanha que Tarcísio e Eva Wilma voltaram a aparecer no último capítulo da novela.
Admirador de Benedito, o autor Walter George Durst, que está adaptando a novela ‘‘Os Ossos do Barão’’ para o SBT, acredita que o elenco do restante da trama tem de ser tão talentoso quanto o do início. ‘‘E não é sempre que isso acontece’’ - alfineta Durst.
Quem endossa as palavras de Durst, dando nome aos bois, é Ana Maria Moretzsohn, autora de ‘‘Perdidos de Amor’’, da Band. ‘‘Em ‘Mandala’ e ‘O Rei do Gado’ as primeiras fases é que deixaram saudades’’ - detona a autora. Ela garante não ter de obedecer a um pedido da emissora para economizar após os capítulos iniciais e de que a idéia de promover viagens ao exterior no início das tramas parte normalmente dos autores. Já Lauro César Muniz, autor de ‘‘Zazᒒ, novela que irá substituir ‘‘Salsa & Merengue’’, admite que existe um acordo tácito entre o autor e a direção da emissora para que cenas que exigem maior glamour sejam gravadas no início das tramas.
Na opinião de Alexandre Ishikawa, gerente de produção da Globo, o orçamento de uma novela não decresce com o decorrer da trama. ‘‘Os custos até diminuem no final, porque os cenários originais já estão prontos’’ - garante Ishikawa. Ele parece esquecer, no entanto, que a necessidade de se cumprir o cronograma faz com que o elenco se aglomere em poucos cenários, quando a novela já está na reta de chegada.
Segundo Durst, tudo não passa de uma questão mercadológica, ditada pelos donos das emissoras. ‘‘Muitas vezes, eles chegam a recomendar um início espetaculoso’’ - revela Durst. Apesar das divergências, todos são unânimes em uma coisa: as primeiras fases das novelas quase sempre superam o restante da trama.
Rumo ao exterior Viagens glamourosas ao exterior também vêm se tornando cada vez mais comuns no início das novelas. ‘‘Perdidos de Amor’’, uma co-produção entre a Band e a TV Plus, teve os seus quatro primeiros capítulos gravados na África do Sul. Segundo a autora Ana Moretzsohn este é um recurso para grudar o espectador na cadeira. ‘‘É preciso seduzi-lo com a aventura’’ - afirma. Atualmente, porém, os autores fazem questão de dizer que as equipes que viajam ao exterior têm profissionalismo suficiente para gastar o dinheiro de modo controlado. Já faz parte do passado a existência de diretores caudilhistas que mandam a equipe cortar o cafezinho como medida de economia.
Na opinião do gerente de produção da Globo, em geral o staff que viaja ao exterior é o mais reduzido possível, variando entre dez e 15 pessoas. ‘‘As cenas internacionais permitem que o espectador sem condições econômicas possa usufruir de imagens belíssimas’’- assegura Ishikawa. Ele revela ainda já ter ouvido falar, nos bastidores globais, que estas viagens servem para que se realizem contatos comerciais entre as emissoras. Verdade ou não, o fato é que boa parte das novelas brasileiras já estão vendidas para vários países europeus antes mesmo da trama chegar ao seu final.
Aparição fugaz Ao contrário do público em geral, os atores escalados para viverem apenas as fases iniciais das novelas não ficam frustrados por terem de abandonar a trama logo de cara. Este é o caso do ator Leonardo Brício, que fez o Enrico Berdinazzi, na primeira semana de exibição de ‘‘O Rei do Gado’’. ‘‘Acho ótimo ficar com esse gostinho de quero mais’’ - garante Leonardo. Mas foi Leonardo Vieira quem mais se beneficiou das aparições na primeira fase de novelas. Ele viveu o José Inocêncio, em ‘‘Renascer’’, e causou tanto frisson que foi escalado em seguida para protagonizar ‘‘Sonho Meu’’.
O candidato a galã Marcelo Antony também participou da primeira fase de ‘‘O Rei do Gado’’. ‘‘Acho ótimo fazer um trabalho de época’’ - exalta Antony. O ator teve de fazer sete testes para viver o Bruno Berdinazzi e acabou tendo uma atuação tão marcante que, logo em seguida, foi convidado por Wolf Maya para participar de ‘‘Salsa & Merengue’’, onde fez apenas um teste para viver o Eugênio Amarante Paes. Diga-se de passagem, um personagem bem mais apagado do que Bruno, que apareceu em apenas sete capítulos.

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