O preço da independência
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sábado, 13 de julho de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba O teatro curitibano assiste a uma nova articulação do mercado cultural: a abertura de salas de apresentação independentes. Concorrendo com os editais dos teatros públicos, já existe quase uma dezena de teatros privados na cidade. É certo que muitas salas que inauguraram nos últimos anos sucumbiram diante das dificuldades inerentes à manutenção de um espaço particular, principalmente no que diz respeito à questão financeira. Outras no entanto, estão se consolidando gradativamente e ganhando cada vez mais espaço no agora povoado mundo das artes cênicas.
Teatro Lala Schneider, Espaço 2, Ateliêr de Criação Teatral (ACT), Teatro dos Satyros e Teatro Cultura são apenas alguns exemplos das iniciativas que deram certo em Curitiba. Com propostas e ideologias distintas, esses espaços têm uma coisa em comum: nasceram da necessidade dos grupos teatrais manterem um espaço próprio para ensaios. Outra motivação foi a carência de uma espaço físico para apresentação pública, sem a burocracia que os espaços públicos exigem. A independência, no entanto, tem seu preço.
Antigamente, os grupos tinham apenas duas alternativas para se apresentarem publicamente em Curitiba. Inscrever-se no edital do Teatro Guaíra (que mantém o miniauditório do teatro, o Guairinha, o Guairão e atualmente o Teatro José Maria Santos) ou realizar o mesmo processo por meio da Fundação Cultural (Teatro Cleon Jacques, Centro Cultural do Portão, Teatro Londrina, entre outras pequenas salas). Esses espaços dão prioridade aos grupos paranaenses, mas por outro lado utilizam uma política de ocupação que não oferece muitas vantagens aos grupos, apesar de ser extremamente democrática.
A outra possibilidade, remota há uma década, era buscar espaços independentes. O problema é que muitas vezes esses espaços eram provisórios ou caros demais para realidade dos grupos. Para tentar mudar essa situação, há oito anos, o ator e diretor de teatro João Luiz Fiani inaugurou o Teatro Lala Schneider, em homenagem a uma das atrizes mais atuantes do Estado. ''A idéia era ter um espaço que pudéssemos ensaiar e apresentar nossos espetáculos com uma temporada mais ampla'', confirma Fiani.
Mas essa ideologia é difícil de ser mantida ao longo dos anos, conforme ressalta o diretor. ''As pessoas me criticam por eu fazer espetáculos comerciais, como se fosse crime viver de teatro, mas essa é a única maneira de sobreviver e pagar as contas no final do mês'', diz. A companhia do diretor (Cia. Máscaras de Teatro) é conhecida por fazer espetáculo de estética para lá de duvidosa. Mas justiça seja feita: as estréias da companhia (cerca de uma por mês) lotam os quase 100 lugares da platéia por semanas consecutivas. ''São espetáculos que dão público. Se eu fizer peças herméticas, para o meu umbigo, como vou fazer para arcar com as despesas do teatro?'', questiona o diretor, irritado com as constantes críticas que recebe.
Mas o maior problema do Lala não é a qualidade dos espetáculos, mas sim a manutenção do espaço. Dificuldade, aliás, estendida para os outros espaços, independente da ideologia adotada. Para resolver a questão, Fiani pede igualdade de condições para os teatros públicos e privados. Sugere que os espetáculos que recebem recursos de leis de incentivo à cultura aluguem espaços particulares. ''Os produtores que não trabalham com recursos da lei, poderiam ter prioridade para os teatros públicos'', defende.
Sem mencionar o problema de qualidade técnica dos espaços privados, esses locais alugam os palcos (muitas vezes com iluminação e som precários) a cerca de R$ 100,00 por dia, dependendo da temporada. Já os espaços públicos, mantidos pela Fundação Cultural e Secretaria Estadual da Cultura, mantêm uma política de porcentagem de bilheteria ou cotas fixas que chegam a metade do cobrado pelos locais privados. Talvez, seja um dos motivos que as companhias teatrais ainda relutem em adotar os espaços particulares, contribuindo para a dificuldade de manutenção dos mesmos.


