O prazer (e a tortura) de aprender piano
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sábado, 05 de abril de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
No estudo de piano, o erudito e o popular não são como o ébano e o marfim no teclado ou a relação de Chopin (1810-1849) e o instrumento, que correspondia ao amor do compositor, permitindo-lhe a improvisação. Uma relação com a arte que para alguns iniciantes pode ser traumática, principalmente na infância, quando é mais difícil compreender que o amor a qualquer coisa - na maioria das vezes - depende da primeira impressão.
Hoje, Andréa Torchi é arquiteta, mas se lembra das primeiras aulas de piano em que a professora batia em suas mãos e as amarrava com bolinhas de pingue-pongue para que ficassem redondinhas e não machucassem o instrumento de temperamento difícil.''Comecei a tocar piano aos quatro anos de idade. Tive um pouco de dificuldade no início. Primeiro porque não era alfabetizada. Segundo porque queria aprender músicas que eu escutava'', lembra Andréa.
Em toda a vida, a arquiteta quase não ficou longe do piano, lembrando apenas de um pequeno período em que ficaram separados. Ao retomar as aulas, em 2006, Andréa descobriu que o repertório popular pode ser mais sedutor aos iniciantes, não descartando a importância do erudito no aprendizado e na própria evolução da música.
''É maravilhoso para qualquer pessoa. O clássico é importante, mas também é necessário saber que, através de uma harmonia posso tocar uma música. Gosto da metodologia em que se ensina o popular porque os alunos aprendem na prática, abrindo um leque grande de possibilidades'', comenta Andréa.
A arquiteta é aluna de Maria Solange Godoy Scripes, sendo um dos dois estudos de caso da monografia ''O Prazer de Tocar Piano - Duas Histórias, Duas Pianistas'', que a professora apresentou na Universidade Estadual de Londrina (UEL).
A própria Maria Solange começou a ministrar o método tradicional, introduzindo um modelo pedagógico diferenciado em suas aulas em que o repertório popular é um dos protagonistas de novas histórias, que podem acabar numa relação de amor para toda a vida dos alunos.
''Esse modelo visa atender ao sonho do aluno, que pode querer tocar piano por prazer, numa banda ou na igreja. Nem todas as escolas pensam assim. O método tradicional objetiva o professor, o que ele quer que o aluno toque. As aulas de piano precisam enxergar o cotidiano do aluno e o que pretende. Na novo modelo existe mais diálogo, sendo ao mesmo tempo ensino e aprendizado entre aluno e professor'', afirma Maria Solange.
Nesse visão pedagógica, os alunos podem começar com um repertório que inclui de Paulo Ricardo a High School Musical e Bruno & Marrone. Aos poucos, ganha a companhia de outros estilos musicais apresentados pela professora.
''O objetivo é sensibilizar a pessoa para a música e o gosto musical. Paulo Freyre fala muito sobre a importância de encorajar o aluno. Na proposta antiga acontecia o contrário, sendo que o estudante de piano deixava a aula desencorajado'', explica a profesora.
O piano é um instrumento completo devolvendo aos que o compreendem a possibilidade de fazer a melodia, o ritmo e o acompanhamento. Um instrumento que também permite improvisações que, no erudito, é um território de gênios, como Chopin, mas que aos amantes do repertório popular pode se tornar uma terra mais fértil para uma paixão.


