O prazer do sofrimento
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
No dia-a-dia é comum chamarmos alguém de sádico quando tal pessoa impõe algum tipo de sofrimento a outro. O termo sadismo passou a designar, de maneira genérica, a vontade de imprimir sofrimento ao outro. Apesar de ter se popularizado nesse sentido, o termo se desvinculou de seu originário contexto desenvolvido pela lendário Marquês de Sade. A grosso modo, o sadismo seria o gozo sexual no ato de imprimir dor e sofrimento a alguém. Na realidade, o sadismo está vinculado ao embate de duas correntes filosóficas do século 18.
O termo sadismo nasceu em relação à obra do escritor e filósofo francês Donatien Alphonse François (1740 - 1814), mais conhecido como Marquês de Sade. Autor de um obra polêmica e provocadora, não se limitou a apenas escrever romances libertinos, mas em vivê-los. Em seus escritos, bem como em sua vida, o prazer estava totalmente atrelado ao sofrimento. Máquinas de tortura, lâminas afiadas, correntes, chicotes, ferros em brasa e outros aparados para provocar o suplício das vítimas e o orgasmo dos algozes povoam o universo do Marquês de Sade.
Dos 74 anos de vida libertina, 27 deles Sade passou na cadeia. Parte de seus escritos foram destruídos, e a maioria de seus livros foram publicados clandestinamente. Nos últimos anos de vida sua residência foi o Hospício de Charenton. Durante muito tempo sua obra permaneceu guardada nos porões do proibido, até ser resgatado pelas vanguardas européias do início do século 20. Nas últimas década a academia vem se debruçando em seus textos com mais afinco na tentativa de elucidar as implicações de seu pensamento. O lançamento de A Filosofia na Alcova, pela Editora Iluminuras se insere nesse contexto. Com tradução de Augusto Contador Borges, o livro foi apresentado como tese de mestrado em filosofia na Universidade de São Paulo.
Escrito por Sade em 1795, A Filosofia na Alcova é considerado um de seus romances mais importantes. Escrito em forma de diálogo teatral, pode ser descrito como um romance filosófico erótico. Ao mesmo tempo que Sade narra a história, faz seus personagens fundamentarem seus atos em um discurso filosófico.
A história é simples, um pai libertino envia sua jovem filha à residência de uma amiga também libertina, chamada senhora Saint-Ange. A missão de tal senhora é iniciar sexualmente a garota, chamada Eugênie, no mundo da libertinagem. A ingênua Eugênie passará algumas horas na companhia de quatro professores tarados, Saint-Ange, seu irmão, um amigo e o jardineiro da residência.
Passo a passo, esses sádicos professores ensinarão na prática os prazeres, bem como os sofrimentos convertidos em prazeres, da carne. Uma verdadeira orgia didática que prega o vício em detrimento da virtude. Sade valoriza dois atos básicos, a sodomia (atualmente chamada de sexo anal) e a felação (atualmente chamada de sexo oral). Une erotismo e crueldade.
Eugênie se revela uma aluna exemplar e, em poucas horas deixa de ser virgem para ser devassa. Recebe seu diploma, com nota dez, quando a mãe tenta resgatá-la da alcova. Eugênie violenta a própria mãe e passa a torturá-la, com o auxílio de seus professores, de maneira atroz. A cena possui requintes de horror. O horror que leva os libertinos à apoteose do prazer.
A pergunta que surge é clara. O que se passava na cabeça de Sade para criar, e até mesmo viver, coisas assim? Atos que passaram a povoar o imaginário da pessoas mas que também já habitavam, de alguma maneira, algum terreno do imaginário. A resposta não é simples, mas no ensaio que fecha A Filosofia na Alcova, Augusto Contador Borges oferece subsídios para o entendimento.
Dentro das correntes filosóficas, Sade seguia os materialistas se opondo os enciclopedistas e aos sentimentalistas, estes últimos centralizados na figura de Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778). Se pautava pelos instintos naturais: Saber ouvir a natureza é reconhecer que, no indivíduo, a volúpia é a sua manifestação mais viva. Quem deseja tem sempre razão porque atende a um apelo natural determinado mecanicamente pelas reis da física que rege o universo. Os vício seriam parte do direito natural do homem e quanto mais libertino o homem se torna, mais fiel à sua natureza será.
Para Sade, o gozo é um mecanismo germinado no egoísmo: O que se deseja quando se goza? Que todos aqueles que nos rodeiam só se ocupem de nós, só cuidem de nós. Se os objetos que nos servem também gozam, ei-los mais ocupados consigo próprios do que conosco, e consequentemente nosso prazer será prejudicado. Não há homem que não queira ser déspota quando sente tesão.
O que Sade realiza em A Filosofia na Alcova, embora possa parecer perturbador, é apenas uma inversão de raciocínio. Por outro lado, o escritor sabe qual o papel do tempero no imaginário: O que há de mais sujo, de mais infame e de mais proibido é o que melhor excita a cabeça.
A Filosofia na Alcova, de Marquês de Sade, Editora Iluminuras, tradução, posfácio e notas de Augusto Contador Borges, 256 páginas, R$ 28,00.





