Para se deliciar com um belo filé ao ponto, é preciso destruir um boi. Para se deliciar com uma linda salada, é necessário destruir um pé de alface.

Comer é uma apreciação que exige a destruição do apreciado. No mundo gourmet, algo como destruir aquilo que se ama. No mundo da gula, algo como matar aquilo que se venera.

O escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo, no romance “O Clube dos Anjos”, coloca humor e ironia na gourmetização que tomou conta do mundo nas duas últimas décadas.

Lançado originalmente em 1998 pela editora Objetiva, “O Clube dos Anjos” integrava uma coleção de romances encomendados a escritores brasileiros abordando os tradicionais sete pecados capitais: ira, avareza, luxúria, inveja, gula, preguiça e soberba.

Luis Fernando Verissimo ficou com o pecado da gula. E criou uma história de mistério em que o prazer da comida estabelece conexões com a morte. Algo representado pelo provérbio “todo desejo é um desejo de morte”.

A editora Alfaguara está colocando esta semana nas livrarias uma segunda edição do romance de Verissimo. Se há dez anos o romance já ironizava a gourmetização, agora sua leitura ganha uma acidez próxima do sarcasmo.

Luis Fernando Verissimo: livro aborda o gosto pela comida até o último limite
Luis Fernando Verissimo: livro aborda o gosto pela comida até o último limite | Foto: Divulgação

“O Clube dos Anjos” narra a história do Clube do Picadinho, uma confraria que reunia 10 amigos amantes da gastronomia. Na juventude se reuniam no Boteco do Alberi para se empanturrarem de cerveja, picadinho de carne com farofa e banana frita.

Quando adultos, passam a se reunir uma vez por mês para saborear pratos cada vez mais elaborados. E beber vinhos cada vez mais sofisticados. A amizade e o gosto pelo comida fortalece o grupo com tempo numa espécie de confraria secreta.

Tudo assume novos ares quando um novo chef assume o comando da cozinha nos encontros mensais. Um sujeito capaz de extrair gozo e louvores dos integrantes do clube. Em seus receitas o paladar assume uma categoria superior de prazer quase divina.

O detalhe está no fato de que, após cada sessão orgástica de sabores, um dos membros da confraria morre. Todos entendem o que está acontecendo, mas não conseguem deixar de provar os pratos numa espécie de roleta russa gourmet. Afinal, “a fome é um desejo reincidente”. E a perspectiva de morrer passa a aumentar o prazer pela comida.

O risco de morte começa a afetar o aparelho gustativo, os sabores passam a adquirir um prazer inédito, nunca experimentado antes. O estado de exaltação se multiplica atingindo o máximo da euforia no prazer da satisfação do desejo.

Mesmo consciente que estão condenados a cada refeição, os membros da confraria não abrem mão do prazer da comida. Isso porque acalentam uma inveja dos condenados à morte porque só os condenados à morte possuem o privilégio de saber a hora do fim. E as relações entre o executor e o executado também podem existir no universo alimentar, ou mesmo sob o fantasia gourmet.

Em “O Clube dos Anjos”, Luis Fernando Verissimo estabelece um jogo onde o narrador, o único sobrevivente do Clube do Picadinho, não se compromete com a veracidade dos fatos narrados. Mas precisa convencer o leitor que é inocente, tanto nos episódios decorridos quanto em sua narrativa que pode parecer ficção: “Preciso convencer (o leitor) que a história é verdadeira para provar que sou inocente na ficção. O crime inventado é pior do que o crime real. Pois se o crime real pode ser acidental, ou fruto de uma paixão momentânea, não há notícia de um crime fictício que não tenha sido premeditado.”

“O Clube dos Anjos” é um romance humorado sobre a morte pelo prazer da gula. Mas também um romance de como é possível ganhar dinheiro com a gula. E com a morte alheia, é claro.

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Serviço:

“O Clube dos Anjos”

Autor – Luis Fernando Verissimo

Editora – Alfaguara

Páginas – 144

Quanto – R$ 54,90

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