O jeito discreto com que Christiane Torloni chega ao Teatro Bloch, na Zona Sul carioca, para mais um dia de ensaio do espetáculo ‘‘Joana Dark, a Re-Volta’’, contrasta radicalmente com o estilo extravagante da Laila de ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’. A roupa de malha e o bonezinho preto também não lembram em nada a exuberância ‘‘fashion’’ da vilã da novela das sete da Globo. Após dar rápidas coordenadas à equipe de produção da peça, que estréia em julho, a atriz calmamente procura um canto sombrio do teatro para conceder a entrevista. A aparente tranquilidade, no entanto, dá lugar a uma indisfarçável inquietação assim que começa a falar de seus projetos profissionais. ‘‘Estou numa fase extremamente produtiva em minha carreira. E o mais importante: estou realizando projetos que realmente me dão prazer’’, vibra a atriz.
Um dos trabalhos que mais motivam Christiane é a novela de Antônio Calmon. Ela festeja a personalidade da antagonista criada pelo autor. ‘‘Laila é uma vilãzinha que fala muitas verdades nas entrelinhas. Isto acaba incomodando muita gente, embora a personagem tenha tido uma aceitação muito grande do público’’, comemora. Já no teatro, a personagem é completamente diferente: a heroína francesa Joana Dark. ‘‘Faço uma mulher de 20 anos que dá cambalhotas no palco. É um grande exercício para mim’’, pondera a atriz de 44 anos.
A boa fase na tevê chamou a atenção para a forma física de Christiane, que acaba de recusar um convite para posar novamente para a ‘‘Playboy’’, quase duas décadas depois de ter sido capa da revista. ‘‘Na atual fase da minha vida, só faço este tipo de trabalho por muita grana’’, vai logo avisando a atriz, que ao longo de 25 anos de carreira já contabiliza mais de 20 novelas e peças de teatro. O segredo para se manter em atividade por tantos anos na televisão, segundo Christiane, é o prazer pelo ofício. ‘‘Me envolvo completamente com todos os meus trabalhos’’, ensina.
A Laila é extremamente irreverente e extravagante. É mais prazeroso viver este tipo de personagem?
A Laila poderia ser completamente diferente daquilo que ela é. Mas na verdade, busquei dar a ela um tom mais sedutor também. Isto ajuda aliviar um pouco. Reconheço também que ela é uma caricatura. Mas basta ver a abertura da novela, que a proposta da personagem realmente era essa. Ela aparece quase pelada, num tom bastante engraçado. Desde o primeiro momento, não pensei fazer nada naturalista. Minha intenção era realmente fazer algo gozado. Assim a gente se diverte mais. Fica um negócio meio ‘‘fake’’ e as pessoas aceitam melhor. Assim, dá para tocar um pouco na ferida das pessoas. A Laila fala um monte de coisas brincando, mas que no fundo são verdades. Tenho me divertido muito com a personagem. E esta novela é para gente rir. O Brasil precisa aprender a rir de si mesmo.
Você nunca emenda um trabalho seguido do outro na televisão. É uma forma de preservar sua imagem?
Na verdade, é porque tenho outras coisas para fazer. Tenho tentado alternar os trabalhos que faço na televisão com teatro. Principalmente com os projetos que venho produzindo no teatro. Isto traz muita credibilidade para minha carreira. Acho que o público também percebe quando o ator não fica confortável na poltrona de sua casa apenas curtindo o sucesso. A televisão traz muito prestígio no começo. Mas depois é preciso somar outras atividades para realmente crescer profissionalmente. Tenho certeza que o teatro é um grande caminho para isso. E na tevê, o percentual de rendimento é bem menor em relação ao teatro. Por isso, procuro não emendar um trabalho no outro. Tenho necessidade de descansar um pouco a minha imagem da televisão.
Muitos atores acham que a teledramaturgia é um gênero desgastado...
A telenovela é um dos produtos internos brasileiros que mais vendem fora do país. No meio do grande caos que a gente vê por aí, a teledramaturgia se supera. Se não fosse verdade o que estou falando, a gente não venderia tantas novelas para o mundo todo. O último exemplo é ‘‘Terra Nostra’’, que é sucesso de público até nos Estados Unidos. O que também acontece é que o brasileiro tem um certo prazer de falar mal do que ele faz. Você pega a Gisele Bundchen como outro exemplo. Foi preciso o mundo todo reverenciá-la para depois o brasileiro reconhecê-la também. Acho que de um modo geral, a maioria das pessoas que faz televisão tem orgulho do que faz. Só que reconheço que precisa melhorar muito. A todo instante. Pego como outro exemplo, o autor Antônio Calmon. Ele é um profissional que não se acomodou com o sucesso do tipo: ‘‘Eu sei escrever e ponto’’. A cada trabalho, ele vem escrevendo histórias novas e mais interessantes.
Em seus 25 anos de carreira, o Calmon é um dos autores que você mais se identifica?
Com toda certeza. Porque geralmente, ele escreve especialmente para mim. O Calmon é muito contemporâneo e escreve de uma maneira muito engraçada e ágil. Isto é muito gostoso. Então, a gente não tem grandes dificuldades para interpretar o personagem. O Calmon consegue manter um bom humor na trama o tempo todo, além de contar com uma equipe muito boa também. Outro detalhe importante neste trabalho é o surgimento de novos atores. O Caio Blat e a Débora Falabella, que são ótimos. Todos na faixa etária dos 20 anos. O Calmon conseguiu colocar ao mesmo tempo um astro como o Tarcísio Meira contracenando com um garoto como o Caio. E delicioso ver os dois brincando em cena. Até desmistifica aquela coisa do Tarcísio só fazer galãs na televisão. Você vê que ele tem prazer pelo trabalho. A tabela entre os dois serve de estímulo para gente. Também é bacana ver novas pessoas surgindo na televisão. Com o principal ainda: talento.
Seu último trabalho na televisão foi a lésbica Rafaela em ‘‘Torre de Babel’’, que teve uma rejeição muito grande do público e, por isso, acabou saindo da trama. Como você viu aquela polêmica?
O importante é que senti uma reação do público, que é fundamental para nosso trabalho. Hoje em dia, a gente pode colocar qualquer coisa na televisão que as pessoas já engolem. São tantos lixos, que o público acaba aceitando com naturalidade. O que aconteceu em ‘‘Torre de Babel’’ foi que o Sílvio de Abreu bateu de frente com alguns problemas que a nossa sociedade não quer ver. A violência, por exemplo. Para falar disso, ele pegou o marido que toda senhora brasileira gostaria de ter, no caso o Tony Ramos, para interpretar um personagem matando sua mulher com golpes de marreta. Para falar dos conflitos de um casal convencional, ele pegou o Casal 20 da tevê brasileira: formado por Tarcísio Meira e a Glória Menezes. O que é pior: com um filho drogado, interpretado por Marcelo Antony. E para finalizar, ele pegou uma atriz como eu, que fui considerada um dos ‘‘sexy simbols’’ da década de 80, mantendo uma relação homossexual com outra mulher bem resolvida. Isto chocou todo mundo. Até o bispo foi para o jornal para saber o que estava acontecendo. Tem horas que se a gente não mostrar que o rei está nu, ele sempre ficará nu. Por isso, teve toda esta polêmica.
‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’ está na reta final. Qual a sua avaliação da novela?
Com toda franqueza, quando vou fazer uma novela não crio muitas expectativas. Se você criar qualquer tipo de expectativa, corre o risco de ter uma surpresa ao longo do caminho. Primeiro porque estamos atuando numa obra aberta. Na verdade, quem decide hoje em dia é o público. Ou seja, a chamada interatividade. As novelas viraram um verdadeiro ‘‘Você Decide’’. Tanto que de dois em dois meses, os autores se reúnem para saber qual a aceitação dos personagens. Fazem uma análise para ver quem está agradando ou desagradando ao público. Apartir disso, tudo é traduzido dramaticamente. Alguns personagens que acabam caindo no gosto popular e outros não. Fico feliz em saber que o público gosta do estilo muito louco da Laila. De um modo geral, ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’ está sendo uma novela muito boa e com interessantes diálogos.
Você acha importante esta interferência do público no destino dos personagens?
A gente faz televisão para o público. Então, é compreensível esta participação do telespectador. Com o aumento do mercado de comunicação, esta relação cresceu mais ainda nos últimos anos. Hoje, o público pode opinar por meio de e-mail, telefone, fax e cartas. Acho esta interferência saudável e necessária. A Laila, por exemplo, me parece ter caído no gosto popular, mesmo sendo uma vilã enrustida.

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