O povo pega a bola
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de junho de 1999
Ranulfo Pedreiro 
Enquanto a rapaziada, proveniente das classes mais elevadas, batia bola em campos abertos, a garotada que vivia na periferia observava, do outro lado da cerca, os treinos. O futebol era um jogo ainda incipiente no Brasil da virada do século. Enquanto a elite praticava, os pobres assistiam. Com o tempo, os talentos emergiram do improviso, inverteram a situação e configuraram as principais características do futebol brasileiro, tornando-o popular.
A transformação, que passou a bola para os garotos da periferia, é analisada em Uma Caixinha de Surpresas - Apropriação do Futebol pelas Classes Populares - 1900-1930, livro que o historiador Ronaldo César de Oliveira está lançando em Londrina pela Editora UEL.
No texto, Oliveira analisa a introdução do esporte no País e sua popularização até a década de 30. O futebol chegou com Charles Miller, um estudante que viveu na Inglaterra e voltou a São Paulo em 1894 trazendo a primeira bola. No Rio de Janeiro, o esporte desembarcou em 1901 com um estudante proveniente da Suíça, Oscar Cox. Em ambos os casos, o jogo aportou em terras brasileiras pelas mãos da elite, que passou a praticá-lo.
Como a maioria dos campos construídos no País eram abertos, os jogadores treinavam sob a observação de curiosos. Logo, o equipamento caro - bola e uniformes - foi substituído nas vilas por bolas de meia. Não demorou muito para a periferia revelar domínio técnico.
Para os ricos, o futebol era uma diversão que preenchia os espaços entre as atividades diárias. Estes garotos praticavam esportes desde criança, eram robustos e utilizavam no campo o vigor físico herdado da escola inglesa.
Na periferia, onde os rapazes eram magros em consequência das condições de vida, o esporte era praticado o dia inteiro. Para escapar do jogo duro da elite, esses garotos aprenderam a dominar a bola e aplicar dribles, evitando o confronto físico. Nasciam a leveza e descontração do jogador brasileiro.
Toda essa teoria, corroborada em pesquisas por Ronaldo de Oliveira, vai ainda mais longe. Com o desenvolvimento dos clubes e o tempo escasso dos ricos, o pessoal da vila passou a frequentar cada vez mais as escalações. Para que esses meninos fossem treinar, os clubes cediam transporte e uniforme, iniciando o processo de profissionalização com a ajuda de custo.
O trabalho é uma monografia do curso de especialização em História Social e foi defendido na Universidade Estadual de Londrina. Acho que no meio acadêmico esse tema é meio marginalizado, ainda não tem o espaço que merece, mas é algo que move milhões de pessoas todo o final de semana e é um fenômeno ignorado pelos estudiosos, defende o pesquisador.
As fontes para pesquisa foram escassas. Além de O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho - irmão de Nelson Rodrigues -, Ronaldo César debruçou-se sobre revistas e artigos de jornal.
As crianças que estavam fora da escola na época assistiam aos rapazes da alta roda treinar, e começaram a imitá-los. Quando cresceram, essas crianças desenvolveram uma habilidade mais refinada, comenta. O processo resultou na profissionalização do futebol brasileiro em 1933.
Para o pesquisador, as classes populares levaram o mérito: Elas trouxeram muita improvisação, muita malícia. Acho que nesse início é onde reside a chave para explicar por que o futebol mobiliza tanta gente hoje.
Ronaldo de Oliveira vai agora partir para o mestrado com um projeto em que pretende ampliar a discussão e, talvez, até tratar da relação entre futebol e política. O sucesso do futebol foi capitalizado por políticos: em 1958 pelo Juscelino Kubitscheck, em 1962 pelo João Goulart, em 1970 pelo Milagre Brasileiro e em 1994 por Fernando Henrique. O triunfo é sempre um triunfo do governante, completa.Dorico da SilvaRonaldo César de Oliveira: professor analisa a apropriação do futebol pelas classes populares entre 1900 e 1930Pesquisador londrinense
analisa em livro processo
que transformou o futebol -
antes um esporte de
elite - em paixão nacional


