São Paulo, 20 (AE) - Conta-se que o poeta surrealista André Breton se queixou certa vez ao cineasta Luis Buñuel: "Luis, hoje em dia o escândalo não é mais possível". Breton, que havia pontificado nos anos 20, achava que depois disso os costumes e a mentalidade das pessoas tinham evoluído tanto que ninguém mais poderia viver de chocar o próximo, como haviam feito os surrealistas em sua época de ouro. A estréia de "Dogma", de Kevin Smith, amanhã (21) pode colocar à prova a tese de Breton.
"Dogma", que até pelo nome é uma brincadeira com os preceitos da fé cristã, tem despertado a ira dos católicos, em seu país de origem e aqui. Nos EUA, foi combatido pela Liga Católica para Direitos Civis, que reuniu manifestantes diante de cinemas quando o filme foi exibido no Festival de Nova York. Não conseguiram proibí-lo, mesmo porque lá a liberdade de expressão está assegurada pela lei maior. Estreou normalmente e ganhou boas críticas, de maneira geral.
Por aqui, quem tomou a dianteira na cruzada contra Dogma foi a TFP (Tradição, Família e Propriedade), movimento católico conservador, que angariou centenas de milhares de assinaturas pedindo o veto ao Ministério da Justiça. A última vez que isto aconteceu no País foi em 1986, com a proibição de "Je Vous Salue Marie", de Jean-Luc Godard, obra também considerada blasfema. Mesmo que não seja proibido, as pressões contra "Dogma" já surtiram efeito: o filme será exibido em circuito restrito, pois alguns dos grandes exibidores não quiseram se comprometer com seu conteúdo.
E qual é esse conteúdo? Kevin Smith, que se diz bom católico, armou uma parábola provocativa. Dois anjos caídos (Ben Afleck e Matt Damon) planejam voltar ao paraíso, pois foram condenados a viver em Wisconsin pela eternidade afora. Se conseguirem seu intento isso significaria a falibilidade de Deus e, portanto, o fim da criação. Nesse enredo, entra uma suposta descendente da Virgem Maria (Linda Fiorentino), um novo apóstolo
cujo nome teria sido riscado da História por ser negro (Chris Rock), uma musa celestial vivida por Salma Hayek e a bombástica revelação de que Deus seria mulher. Aliás, Ela é interpretada pela graciosa cantora pop Alanis Morissette.
Já nos primeiros fotogramas, Smith, talvez consciente dos problemas que teria a seguir, avisa que não é para ser levado a sério. Quis fazer apenas uma comédia, diz ele. E não há porque duvidar. O tom é parecido com o dos seus dois primeiros longas, "O Balconista" e "Procura-se Amy". Jovem, rápido, descolado. No caso de "Dogma", com o adicional de um pé no trash. O filme atola de vez no pântano do mau gosto ao criar um monstro chamado Gólgota, formado de excrementos e que ameaça a salvação da humanidade.
Provocação ideológica é uma antiga prática cinematográfica. Basta que o diretor tenha algumas idéias na cabeça e elas não coincidam com a visão religiosa dominante. Godard enfrentou problemas e, antes dele, Pier Paolo Pasolini provocou dores de cabeça nos censores do mundo todo. Um caso à parte é Buñuel, cuja obra, do princípio ao fim, se caracteriza pelo anticlericalismo. Por exemplo, uma delas, "O Estranho Caminho de Santiago", é baseado, textualmente, numa história das heresias. Simplesmente demolidor.
Ao lado de Godard, Pasolini e Buñuel, o filme Smith parece brincadeira de criança. Não choca, a não ser quem entrar no cinema com a disposição expressa de ser chocado. Nem diverte, pois como comédia é pífio. Só confirma o engano de Breton. O escândalo é possível, sim. Cada vez é mais fácil provocá-lo.