Dib Carneiro Neto
Agência Estado
Depois de 83 anos e dez livros de versos, em que brinca com as palavras com um viço de menino levado, o poeta mato-grossense Manoel de Barros oferece a seus leitores uma obra assumidamente voltada para o público infantil, ‘‘Exercícios de Ser Criança’’ (Editora Salamandra, 48 págs., R$ 16,00). No dia 18, haverá uma noite de autógrafos em São Paulo, na Casa de Livros (Rua Capitão Otávio Machado, 259, Chácara Santo Antônio, em Santo Amaro).
Em uma das histórias do livro, por exemplo, um menino aprende a fazer ‘‘peraltagens’’ com as palavras: foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase; foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela - e, com o tempo, esse garoto cismado e esquisito percebeu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira, o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele nas mãos, o mesmo que catar espinhos na água ou criar peixes no bolso. O menino virou poeta.
As ilustrações de ‘‘Exercícios de Ser Criança’’ são um atrativo à parte. Foram feitas a partir de bordados de artesãs de Pirapora, as irmãs Antônia, Marilu, Martha e Sávia Dumont, que, por sua vez, bordaram sobre temas do ilustrador Demóstenes. O mundo mágico e lúdico das histórias do poeta ganhou um colorido vistoso e igualmente poético. Barros garante que escreveu o novo livro por pura insistência da editora, que lhe fez a encomenda há pelo menos três anos.
‘‘Nunca tive a intenção de escrever especificamente pensando no público infantil, porque acho que já escrevo permanentemente para elas’’, diz. ‘‘Minha linguagem interessa a leitores de todas as idades.’’ Ainda assim, a Salamandra não foi a única editora que enxergou um filão infantil nos versos de Manoel de Barros. Vem aí, pela Record, ‘‘Poeminhas Pescados de uma Fala de João’’, com poemas que, segundo o próprio autor, foram ‘‘desentranhados’’ de sua obra, ou seja, são versos já publicados em outros livros, mas agrupados de forma a interessar especificamente ao público de literatura infanto-juvenil.
‘‘São poesias que, em sua maioria, estão no livro ‘Compêndio para o Uso dos Pássaros’, reeditado há pouco pela Record’’, conta Barros, que analisou com cuidado a seleção de poemas e aprovou a idéia de um segundo livro infantil.
Manoel de Barros é o tipo de poeta que segue à risca a máxima de Mallarmé: poesia não é feita de idéias, mas de palavras. Ele, de fato, usa e abusa das palavras, sem nenhum tipo de pudor quanto a isso. Sobretudo as usa como brinquedos - daí é que surge essa relação direta, talvez simplista demais, entre seus textos e as crianças.
Seja como for, ele não acha que tenha de escolher palavras diferentes para adultos e para crianças. ‘‘Adotar o diminutivo em textos de literatura infantil é um dos absurdos mais comuns entre os escritores’’, critica ele. ‘‘Não é preciso escrever casinha, janelinha, portinha, florzinha, só porque o leitor é menor de idade’’, esbraveja. ‘‘Monteiro Lobato sempre alertava a todos sobre a inteligência insuspeitada das crianças.’’ Barros garante que nunca deixou de ser criança. ‘‘Agora, sou ainda mais menino, porque, quando a gente fica muito velho, revira mais as memórias e as lembranças e readquire uma riqueza que se julgava perdida.’’
Ele passou a infância no Pantanal de Corumbá, ‘‘entre bichos do chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios’’, como gosta de dizer sempre. Brincava com sabugo de milho, com bambus, galhos, paus e pedras. ‘‘Tenho um sentimento de ausência, de solidão e de abandono que me persegue até hoje, porque convivi muito tempo só com o horizonte, céu, passarinho e árvore’’, declara. Serviu para virar poeta. E hoje é um velho poeta sem idade, que insiste em carregar água na peneira e criar peixes no bolso.

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