O poeta que descasca palavras
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de novembro de 1998
Cynara Menezes Enviada especial 
A poesia do mato-grossense Manoel de Barros, 81 anos, deve menos à exuberante paisagem pantaneira que à inveja confessa que sente do matuto Bernardo, peão de sua fazenda há mais de meio século. Bernardo é o que eu queria ser, diz o poeta.
A inveja que Manoel de Barros nutre por Bernardo é tão grande que muito do que há no novo livro do poeta, Retrato do Artista Quando Coisa, nas livrarias a partir do dia 15, é, na verdade, inspirado no peão. A coisa é Bernardo, não Manoel.
Retrato do artista quando coisa: borboletas já trocam as árvores por mim, diz o poema que abre o livro. É puro Bernardo, encarnação viva do bom selvagem de Rousseau cuja inocência Manoel de Barros persegue como um tolo busca a sabedoria.
Nos ombros de Bernardo, qual coisa que é, pousam insetos e passarinhos. Foi contratado pela família do poeta quando tinha 18 anos para cuidar de uma tia de Manoel, louca furiosa e mantida presa em um quarto com grades. Quando ela viu Bernardo ficou mansa. Os puros têm uma inocência que transmitem aos loucos, aos bichos e aos poetas, também, diz o escritor. A nova obra de Manoel de Barros está repleta destes puros de espírito tão invejados - há, além de Bernardo, o índio guató Salustiano e os andarilhos Passo-Triste e Pote Cru, saudados pelo poeta como pastores que o guiarão até a inocência.
Uma busca que começou ainda nos anos 30. Nascido em Cuiabá em dezembro de 1916, aos 20 anos - bem antes, portanto, de beatniks e hippies aparecerem -
Manoel enveredou por uma longa viagem que começou na Bolívia e terminou em Nova York.
Entre os índios bolivianos, fascinado, permaneceu seis meses. A cultura dos museus e teatros seria o choque que viria depois, já em território norte-americano. O encontro dos dois mundos fortaleceu a admiração pelos clowns do cinema que persiste até hoje.
Gosto de Chaplin, do Gordo e o Magro, dos Trapalhões, dos irmãos Marx, diz Manoel. Todos os dias acordo às 5 da manhã, tomo guaraná - meu pai me viciou - vou para o escritório e lá fico descascando palavras. Quando desço ao meio-dia, tomo um uísque (bebe álcool diariamente) e ligo a TV para ver o Chaves.
O escritor, que, é preciso dizer, também possui um jeito clowniano à Groucho Marx, com seu bigode e cabelos brancos em desalinho, explica que usa o palhaço mexicano como um respiro. É para me livrar um pouco da literatura, que dá muita angústia.
Diz-se tímido, mas é simpático e bem-humorado. Conta que trabalha com lápis e borracha para apagar as besteiras quando aparecem. A borracha é minha salvação, brinca. A mulher, Stella, companheira há 51 anos, é a primeira leitora e a maior crítica.
Quando acho que já pari, mostro para ela, que diz: Não está bom ainda, vai trabalhar. Isso umas três vezes. Quando ela diz que está bom, aí eu mando para a editora tranquilo.
Conheceram-se no balcão do escritório de advocacia onde Manoel estagiava. Ele fazia fichas. Ela deu o nome completo, endereço e telefone. Ele ligou na mesma noite. Foi um impulso irresistível. Existe amor à primeira vista. Ou melhor, intuição à primeira vista. Eu tive a intuição de que aquela era a mulher para mim.
Já escrevia naquela época. Seu primeiro livro, Poemas Concebidos Sem Pecado, foi escrito aos 19. Ficou conhecido, porém, apenas a partir de 1980, quando Millôr Fernandes, autor das ilustrações da nova obra, recebeu um livro seu e o divulgou.
Surgiram os rótulos: poeta ecológico, surrealista, primitivo. O último é o menos rejeitado - até gosta. Ecológico é o pior para ele. Poesia para mim é linguagem, não paisagem, diz. Dentro de mim existe um lastro que é o brejal. Misturo dicionários com o brejo, não faço nada mais que isso.
Não só coloca o Pantanal como elemento (e não tema central) de sua obra, como diz adorar o Rio de Janeiro, cidade onde passou parte da infância e juventude. Sua frase predileta a esse respeito encerra a discussão: Vivo no Pantanal, mas gosto mesmo é do Leblon.
Diz também não possuir inspiração, poemas que o acordem no meio da noite, mas, às vezes, vê surgir uma idéia, uma palavra. Se Drummond afirmava lutar com a palavra (Lutar com palavras/é a luta mais sã), Manoel de Barros mais propriamente bolina os vocábulos, como um amante desavergonhado.
As palavras se oferecem no cio para mim. Tenho uma relação erótica com elas, diz. De tanto bolinar, seu dicionário favorito, uma cinquentenária obra editada em Portugal em cinco volumes, está desbeiçado, com a lombada torta das retiradas frequentes da estante. O tempo para a bolinação diária foi obtido a duras penas, após anos de trabalho pesado na fazenda que herdou do pai, construindo cercas, levantando a casa, tratando do gado.
Passei dez anos dependurado em bancos. Não dormia, não fazia versos. Isso tudo só para conquistar o ócio, a vagabundagem. Não sou Dostoievski, para escrever sob pressão. Construí meu ócio, conta.
Trauma de juventude: morou no Rio na mesma pensão que Graciliano Ramos e ainda guarda a visão do escritor apertado com família e filhos em um quarto, escrevendo em um canto, o copo de pinga e muitas bitucas de cigarro à frente. Ainda não vivo de poesia, mas recebo meus chequinhos, diz.
É cético quanto às traduções de sua obra - Não conseguem passar a solidão da gente, diz - e, tão recente, a fama o incomoda. Entrevistas, só sem gravador. Mas quando fala dos prêmios que tem recebido, os olhos pequenos brilham de contentamento.
Na quinta-feira passada, no Rio, recebeu o mais recente deles, pelo reconhecimento da obra, concedido pelo Ministério da Cultura. Então metamorfoseou-se de vez em Bernardo, com sua reação simples e sem vaidade, como o peão que embolsava os ganhos por uma cerca recém-erguida. Gosto de prêmios quando têm dinheiro. Quando não têm eu nem vou receber. Esse daí é bom, vinte e cincão (R$ 25 mil). Descobriram que tenho uma obra.


