O poeta e a catedral
Agora virei escritor profissional. O autor da frase é o poeta Affonso Romano de SantAnna que, depois de trabalhar como professor universitário durante 30 anos, e ter-se desligado da direção da Biblioteca Nacional, há três, aposentou-se. Sua vida voltou, então, para aquilo que sempre quis: ler e escrever. Estou com tempo disponível 24 horas por dia, comemora. Ele esteve em Curitiba na última segunda-feira, quando fez palestra Pelo Prazer de Ler no Teatro Londrina.
A Editora Rocco acaba de relançar dois livros de poemas, A Grande Fala do Índio Guarani e A Catedral de Colônia. No momento tem alguns livros em preparo: um de poesia e dois de ensaios, sendo que um deles é o relato dos seis anos que passou à frente da Biblioteca Nacional.
Cheguei à conclusão que é importante que o intelectual com responsabilidade, ou consciência social e histórica, faça depoimentos sobre as suas relações com o poder público, diz o poeta. Para ele, se Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade tivessem deixado seus registros da experiência que tiveram como funcionários do governo, ajudaria muito no entendimento da intrincada máquina da burocracia e do próprio governo brasileiro.
Romano de SantAnna qualifica sua obra como sendo ao mesmo tempo diário, memória e crítica às políticas culturais desenvolvidas no País. Ou à falta dessas políticas, que é uma falha de visão e mentalidade. Afinal, segundo seu entendimento, cultura é a cola que vai manter unidos todos os blocos da sociedade.
Mas como colocar isso na cabeça de político? Vivemos ainda sob o antigo e equivocado conceito de que cultura é uma espécie de chantilly, de enfeite. Por essa ótica o teatro, a ópera, o balé seriam ornamentos para a distração de uma elite; só acessível para quem tivesse atingido certa classe social. Uma visão antropológica, sociológica de cultura mudaria por completo esse conceito, rebate SantAnna.
A cadeira que ocupou na Biblioteca Nacional colocou-o muito próximo do poder a ponto de reforçar as idéias que tinha de que é preciso haver maior clareza sobre as políticas culturais. Para começar, os partidos políticos, em geral, não se interessam muito por cultura. Porém, o Ministério da Cultura poderia ser um grande ministério dentro do governo.
Um dado curioso é que quando uma pessoa está no governo, ela tem que realizar as coisas a despeito do governo. Isso porque os movimentos internos são intensos e contraditórios. O governo em geral é contra o próprio governo. Há uma série de lutas, de interesses; as pessoas ficam se comendo, se devorando entre si.
Colocada à parte na máquina estatal, a Cultura é justamente a pasta que tem ligação direta com as mais diversas áreas nacionais. Há pouco tempo Brasília recebeu um grupo de autoridades internacionais para discutir com o governo brasileiro sobre educação e tecnologia. O Ministério da Cultura não participou do encontro. Era como se não tivesse nada a ver com educação nem tecnologia, escandaliza-se o poeta.
Esse tipo de mentalidade se situaria em que época? Affonso Romano de SantAnna não especifica, mas exemplifica com um episódio. Em 1994, durante a organização da Feira de Frankfurt, o ministro da Cultura do Brasil foi à Alemanha para tratar do assunto, e solicitou uma audiência com o Ministro da Cultura alemão. Responderam-lhe que lá essa pasta não existe.
Então, de repente, um País não tem ministro da Cultura e tem cultura. Isso faz a gente pensar, comenta o poeta. Não é o fato de você ter uma instituição organizada burocraticamente, que vai produzir cultura. Quando você tem uma prática cultural dentro da vida social, ela está sendo gerenciada.
O mesmo acontece nos Estados Unidos. No entanto, o mundo todo sabe da eficiência com que eles não só exportam, como mas influem com na área no resto do planeta. Seja ditando modas musicais, seja forçando acordos cinematográficos.
Pode até não ter política cultural, mas tem estratégia cultural. Essa é a prática. Espantosamente o governo de Fernando Henrique, que é o governo de um intelectual, até agora não se capacitou de que pode propor uma nova visão de cultura, comenta SantAnna.
Outro conceito errôneo brasileiro é de que este é o País de um povo que não gosta de ler. O que falta são livrarias e programas de apoio à leitura, na opinião do poeta. O problema é colocar o livro cara-a-cara com o brasileiro. Quando isso ocorre há uma relação de amor imediata, afirma.
Um funcionário do Ministério da Cultura, durante visita a uma feira de livro ano passado, em Curitiba. argumentou que era preciso criar o hábito da leitura na infância. Romano de SantAnna não aceita a tese:
- Essa pessoa está totalmente equivocada, mal informada, nunca estudou esse assunto. A leitura não é como a catapora, ou outras doenças que pegam ou não na infância.
Ainda durante sua permanência na Biblioteca, constatou que os editores que controlam a Câmara Brasileira do Livro não tinham qualquer interesse com a leitura. O único interesse era vender livros para o governo.
Os dois livros reeditados pela Rocco, com os poemas A Grande Fala do Indio-Guarani e A Catedral de Colônia, foram escritos em 1978 e têm uma ligação comovente. O poeta baseou-se num ritual indígena em que o pagé conversa com seus antepassados, numa linguagem desconhecida à comunidade, para escrever A Grande Fala. A Catedral surgiu de uma experiência sua quando lecionou na cidade de Colonia, na Alemanha.
Ao tomar contato com o estudo dos antropólogos sobre o Grande Falar guarani, o poeta concluiu que este poderia ser a poesia entre os homens. A sua tribo muitas vezes não entende a sua linguagem. No entanto, a poesia é um diálogo do poeta com a sua história, a história do seu País, da sua comunidade, da sua tradição.
A Catedral de Colônia resultou do impacto do brasileiro com aquela igreja gigantesca, que começou a ser construída no século 13 para ser inaugurada seis séculos depois. Foi o único edifício que permaneceu de pé, entre os escombros da Segunda Guerra Mundial. Por ali passou a história, literalmente.
O confronto América/Europa me fez lembrar da minha infância em Minas, eu adulto. Então é um poema onde repasso minha biografia e a do País, explica o poeta. Esse homem saído de uma terra onde a história é ainda muito recente, sem ter raízes milenares, deparou-se num certo momento com ancestralidade que marca os diferentes povos: Na realidade eu não passo de um índio atônito diante da catedral.DivulgaçãoAffonso Romano de SantAnna: Cultura é a cola que vai manter unidos todos os blocos da sociedadeZeca Corrêa Leite





