O poeta do samba
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sábado, 29 de outubro de 2011
Nelson Sato <br> Reportagem Local 
A escola de samba Estação Primeira da Mangueira já o homenageou no Carnaval deste ano. Foi o início das comemorações em torno do centenário de nascimento de Nelson Cavaquinho (1911-1986), que tematizou a verde e rosa em diversas canções.
A data é celebrada hoje. O Rio de Janeiro, berço do compositor, festeja a efeméride com shows e lançamentos de livros e discos. Os shows se espalham pela cidade com participação de vários artistas. Os lançamentos ficam por conta do pesquisador Afonso Machado, autor do livro ''Nelson Cavaquinho - Violão Carioca'' e responsável pela gravação de um CD-tributo com o grupo Galo Preto, do qual é arranjador e bandolinista.
Outro disco sai no próximo mês, dessa vez idealizado pelo cantor Carlinhos Vergueiro e dedicado à obra do sambista. A TV Cultura, de São Paulo, também lembra do mestre no programa ''Ensaio'' (23h) deste domingo. A atração resgata dos arquivos da emissora uma edição do programa ''MPB Especial'', gravado em 1973 com Nelson interpretando alguns de seus temas passionais.
Versos de botequim
Poeta popular, ele deixou uma obra extensa de cerca de 600 músicas, das quais 120 foram gravadas em vida - outras tantas teriam se perdido entre um balcão e outro de botequim. Desprovido de ambições, o compositor sempre preferiu virar noites tocando em rodas de choro e samba a correr atrás de sucesso, dinheiro ou fama.
Fazia da dor a matéria prima de seus versos dramáticos. A glória lhe era secundária. De origem humilde, sua mãe (paraguaia e índia) trabalhava como lavadeira e seu pai era contramestre da Banda da Polícia Militar. Estudou só o primeiro ano do primário. O primeiro cavaquinho foi de brinquedo: uma caixa de charutos improvisada com pregos e cordões.
Não tinha técnica nem conhecimento formal em música. Começou tocando cavaquinho e chorinho, passando depois para o violão e o samba. Desenvolveu um estilo peculiar de tocar os instrumentos usando apenas dois dedos, o polegar e o indicador, com os quais ''beliscava'' as cordas. Ainda jovem, Nelson entrou para a Polícia Militar.
O boêmio precoce vestiu farda e foi designado para o setor de Cavalaria, onde serviu durante oito anos. Para a sorte da música popular brasileira, foi escalado para patrulhar o morro da Mangueira onde conheceria Cartola e Carlos Cachaça. Nunca mais voltou ao quartel. Nelson não dava bola para a autoria de suas músicas. Em muitas, dividiu a autoria com quem nunca havia composto um único verso. Bastava lhe dar uns trocados para ter o nome nos créditos.
No auge da Bossa Nova, tocava para clientes de restaurantes em troca de comida. Na época, o então governador da Copacabana, Negrão de Lima, ofereceu uma casa (pois nem isso ele tinha) e uma pequena pensão ao artista. Gostava de frequentar a Praça Tiradentes, centro do Rio, onde batia ponto num bar batizado por ele e seu parceiro Guilherme de Brito de ''Cabaré dos Bandidos''.
Luz Negra
Mesmo casado, passava duas ou até três dias seguidos na boemia. ''A verdade é que Nelson não seria Nelson sem a bebida'' - escreveu Flávio Moreira da Costa no livro ''Nelson Cavaquinho - Enxugue os Olhos e me dê um Abraço'', publicado em 2000 pela colelão Perfis do Rio da editora Relume Dumará. Guilherme de Brito foi seu grande e verdadeiro parceiro por mais de 40 anos. Juntos fariam letras e músicas como ''Pranto do Poeta'', ''Miragem'', ''Quando Eu me Chamar Saudade'', ''Folhas Secas'' e ''A Flor e o Espinho''.
Esta última, a mais conhecida de Nelson, é motivo de controvérsias. Há quem dê todo o crédito da letra a Nelson, há quem só lhe atribua a melodia. Guilherme deu sua versão em entrevistas explicando que seriam seus os célebres versos iniciais ''Tira o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor'', mas que a segunda parte teria sido composta pelo parceiro.
A música foi gravada a primeira vez por Raul Moreno, mas só estourou na voz de Elizeth Cardoso, sucedendo-se a partir daí inúmeras regravações. Além da Elizeth, uma constelação de mulheres o ajudou a sair do anonimato: Odete Amaral, Dalva de Oliveira, Nara Leão, Elza Soares, Telma Soares, Cristina Buarque e Beth Carvalho foram algumas que emprestaram voz às suas composições.
Foi a gravação de ''Luz Negra'' por Nara Leão, em seu álbum de estreia, em 1964, que jogou luz sobre seu talento. Musa da bossa nova, Nara vivia uma fase de pouca identificação com os rumos que o movimento tomara até ali. E foi buscar repertório no universo do samba. Salto de popularidade ainda maior aconteceria a partir do lançamento de ''Folhas Secas'', entregue por Nelson ainda inédita para Beth Carvalho. A partir dali, a cantora defenderia sambas do autor em quase todos os seus álbuns, totalizando hoje mais de 40 gravações.
Morte agendada
Uma história bastante difundida entre sambistas cariocas é a de que, certa vez, ele teria tido um pesadelo sobre sua morte com a revelação da hora da despedida, supostamente agendada para às 3 horas da manhã. Dali em diante, o sambista passara a atrasar diariamente o relógio, na esperança de retardar a partida anunciada.
No dia 19 de dezembro de 1985, porém, ele foi internado pela primeira vez. Estava com enfisema pulmonar. Passou quinze dias no leito do hospital, seguido de um período curto em casa (fraco, caminhava pela casa apoiado na mulher Durvalina ou na filha-enteada) e um retorno à clínica. Na manhã do dia 18 de fevereiro de 1986, seu coração parou de bater. O corpo foi encontrado na cama ao lado do violão.


