O POETA DO RISO E DA DOR
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de maio de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Ninguém teve a idéia, mas a história dos malditos da MPB já poderia muito bem ser contada em livro. Por enquanto, até que algum escritor se candidate à tarefa, é quase obrigatório mergulhar nas páginas da biografia Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua, que acaba de sair dos fornos narrando a trajetória do cantor e compositor capixaba Sérgio Sampaio.
O lançamento é da editora Muiraquitã. O autor é o pesquisador musical diletante Rodrigo Moreira. O livro dá sequência à redescoberta do artista, celebrado no ano passado com o lançamento do CD-tributo O Balaio do Sampaio, organizado por Sérgio Natureza. É Natureza, aliás, quem assina o prefácio do volume.
Famoso pela canção que dá título ao livro, Sampaio faz parte da turma de bastardos da música popular brasileira na qual figuram nomes como Jards Macalé, Jorge Mautner, Luiz Melodia e Walter Franco. Autor de um único sucesso, deixou três álbuns, vários compactos e participações na coletânea de carnaval Convocação Geral e no legendário LP Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez ao lado de Raul Seixas, Mirian Batucada e Edy Star.
O livro recapitula desde a infância e adolescência marcadas pelo rancor ao pai em Cachoeiro do Itapemirim até sua morte aos 47 anos quando preparava seu retorno aos estúdios com um novo disco. Além de seguir passo a passo a carreira do artista, o autor reconstitui paralelamente os panoramas musicais das diversas épocas.
A cena carioca, em particular, ganha foco revisitada através de shows em seus principais teatros e casas noturnas. Ao longo da narrativa, desfilam personagens como Torquato Neto (em cuja homenagem Sampaio compôs Que Loucura) e toda a confraria de artistas criativos e marginalizados pelas gravadoras, rádios e tevês.
O livro relata em detalhes a dura vida no Rio (chegou mesmo a pedir esmolas, aqui e ali, para comer), a ascensão e o ostracismo experimentados pelo compositor pós-tropicalista. Traz à luz suas incompatibilidades, presentes já no Tiro de Guerra, fase marcada por insubordinação, abandono de pernoites e, consequentemente, vários fins de semana detido.
Revela o quanto ele se descuidou da carreira enchendo a cara e trocando o dia pela noite assediado por pessoas que só queriam se drogar às suas custas. Introduzido no mercado fonográfico por Raul Seixas, que trabalhava como produtor da gravadora CBS no final dos anos 60, Sampaio compôs seu célebre hit depois de uma conversa com Erasmo Carlos.
Sérgio queixou-se ao Tremendão que até se fizesse uma canção bem popular dizendo, por exemplo, que queria botar o bloco na rua, a gravadora vetaria sob alegação de que não passaria na censura. Erasmo, entretanto, o encorajou a fazer a música exatamente daquele jeito, com aquele tema, falando que todo mundo estava sufocado e com o grito preso na garganta.
Sérgio já saiu dali com o refrão pronto e no mesmo dia concluiu a marcha-rancho Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua. A música foi inscrita no FIC (Festival Internacional da Canção) de 1972 e quase foi desclassificada não fosse a intervenção da presidente do júri, Nara Leão, que manobrou para que os demais jurados (o jornalista Sérgio Cabral e o maestro Rogério Duprat, entre eles) mudassem o regulamento e acrescentassem a composição à lista das semifinalistas.
Esse festival será lembrado por essa canção proclamou ela. A música não ganhou nada, mas conquistou a platéia e vendeu 500 mil cópias. O estouro repercutiu em toda a América do Sul e até na Europa, onde logo apareceram versões da música em espanhol e italiano. Depois dela, o artista passou a ser cobrado para que desovasse outros sucessos milionários.
Gravou o primeiro LP pela gravadora Philips, que só o contrarara porque via nele potencial para produzir músicas de igual impacto. O trabalho, porém, não agradou à crítica e foi um fiasco de vendas. Seguiram-se sumiços, atrasos, omissões, bebedeiras e ataques de estrelismo. O autor lembra que em 1974 Sampaio tentou o suicídio entrando literalmente por baixo da traseira de um ônibus.
O Corcel ficou praticamente acabado, mas Sérgio, que nem carteira de habilitação possuía, conseguiu escapar ileso. Dois anos depois, já casado, ele retomou a carreira gravando o segundo álbum Tem Que Acontecer. Saudado pela crítica, o long-play foi ignorado pelo público numa amarga ironia ao título. O terceiro disco, Sinceramente, demorou doze anos para sair.
No auge das gravações independentes, com Arrigo Barnabé e sua turma despontando em São Paulo, Sampaio também foi à luta e o álbum foi feito às próprias custas. Nesta empreitada, sua habitual mordacidade convivia com um romantismo desenfreado. A surpresa do disco era Doce Melodia, homenagem ao amigo Luiz Melodia, com a presença do próprio nos vocais.
Havia ainda o samba pop Faixa Seis, lotado de sacações irreverentes. Você hoje pra mim / já está completamente resolvida / Você hoje pra mim é a faixa seis / do lado B do meu último LP cantava ele. Em termos comerciais, foi mais um fracasso de vendas com pilhas de cópias amontoadas no apartamento do Leblon do artista.
Na verdade, a mina de Sampaio eram as canções avulsas lançadas em compactos. Foi assim, por exemplo, com Ninguém Vive Por Mim cuja letra ácida trazia versos como Enfrentei um osso duro, duro de roer / Escapei dessa armadilha / e agora estou aqui / O pior dos temporais aduba o jardim. A mesma boa recepção teve também Meu Pobre Blues, que seria dirigida a Roberto Carlos, a quem tentou em vão compor e ver aceita uma canção.
Sem os holofotes da mídia e vetado pelas gravadoras, seus já esporádicos shows começaram a escassear ao longo da década de 80. Não podendo pagar aluguel, apelava para os amigos. Na casa de alguns, chegava para passar uns dias e acabava ficando um ou dois meses. O álcool, uma companhia bem mais constante que a música, fazia estragos. Segundo o autor, duas separações amorosas do cantor teriam sido motivadas pelo vício, que o tornava intratável.
No início dos anos 90, Sérgio vai morar em Salvador e retorna aos palcos apresentando-se em várias capitais do Nordeste. Com um repertório de cerca de 45 músicas prontas, cogita-se a gravação de um novo disco pelo selo independente paulista Baratos Afins. Fica tudo acertado para o início das atividades dali a alguns meses. Um crise de pancreatite, porém, cancela o projeto e a vida do compositor.
Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua conta em detalhes essa trajetória reunindo ainda comentários de músicas e discos, além de incluir fotos do arquivo familiar e depoimentos de artistas que o conheceram como João Bosco, Chico César e Zeca Baleiro.


