O poeta do desterro
Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasSylvio Bach: Tinha de investir na poesia dele, que é o maior poeta negro da língua portuguesaO POETA DO
DESTERRO
Sylvio Bach filma a vida de Cruz e
Sousa. Um docudrama, segundo o diretor
Isadora Andrade
Cult Press
O eterno antagonismo entre o amor e a morte é o ponto de partida do novo filme de Sylvio Back, Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro. Para contar a dura trajetória do poeta negro que viveu no século passado, o diretor decidiu filmar planos e sequências alinhavados pelos poemas do autor. Assim como os escritos do poeta, a produção é permeada pelos amores vividos por Cruz e Sousa e a difícil convivência com a morte - depois de anos sofrendo com a tuberculose, acabou morrendo da doença. Com o fim das filmagens, Sylvio agora se dedica à edição e sonorização do filme, que vai ser lançado no início do ano que vem. Quero mostrar aos brasileiros quem foi Cruz e Sousa, anima-se o cineasta.
A idéia de filmar a vida do poeta surgiu a partir do conselho de um amigo. Há dois anos, o diretor foi procurado por um pesquisador que sugeriu fazer um filme sobre o poeta negro. Assim, depois de se aprofundar na história do poeta, Sylvio decidiu aproveitar o aniversário de morte do autor para contar as desventuras do poeta que saiu de Santa Catarina para tentar a vida no Rio de Janeiro. Tinha de investir na poesia dele, que é o maior poeta negro da língua portuguesa, exalta o diretor. Entre outras histórias, o filme narra fatos curiosos sobre Santa Catarina - terra natal do poeta. Até 1894, a capital era chamada de Nossa Senhora do Desterro. Com a Revolução Federalista, a cidade passou a ser nomeada Florianópolis em homenagem ao Marechal Floriano Peixoto. Como o poeta era chamado de o poeta do desterro, Sylvio optou por nomear o filme assim. Afinal, Cruz e Sousa era um desterrado, explica o diretor.
O poeta catarinense era filho de escravos e foi criado por um casal branco. Recebia o mesmo tipo de educação e conforto que os demais jovens brancos de sua idade. Ao contrário da maioria da população negra da época, Cruz e Sousa sabia falar inglês e francês. Sylvio conta que o poeta usava roupas caras e era um autêntico galanteador. Chegou uma hora em que a cidade ficou pequena para ele, acredita. O poeta partiu para o Rio de Janeiro com a intenção de publicar seus poemas. Depois de lançar duas obras simbolistas em apenas um ano, Cruz e Sousa provocou a inveja de outros autores contemporâneos, que passaram a rejeitar seus textos. Ele foi suicidado pelo poder literário da época, acusa.
O período é retratado no filme através do poema O Esquecimento. Nele, o poeta demonstra a tristeza ao ver suas obras ignoradas pela classe literária. As primeiras cenas de Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro reconstrói a morte do autor e mostra o inconformismo da esposa, que sofre ao levar o cadáver no colo num vagão vazio de trem para poder enterrá-lo. A trajetória da família continua marcada pela tragédia: em seguida a mulher enlouquece e, juntamente com os quatro filhos, também morre de tuberculose. Sylvio garante que não vai explorar o lado dramático da vida do poeta. Não invisto nisso. A tevê já esgota esse viés, alfineta. Para ele, o mais importante é poder explorar as obras e o processo de discriminação que o autor sofreu.
Com um orçamento de US$ 700 mil, o filme faz um misto de ficção e documentário. É um docudrama, brinca o diretor. Ele inseriu, no decorrer da história, três minidocumentários com imagens e fotos de arquivo. Para ele, quanto mais informações puder levar para a tela, melhor. Assim, o diretor aproveita para contar uma parte da história não só da literatura, mas do momento político e social do País no final do Século XIX. Ele acredita que o brasileiro gosta de assistir a filmes que falem da história do Brasil. O problema é que o cinema é invadido por filmes americanos, queixa-se o cineasta.
Além de Cruz e Sousa, o diretor já prepara dois novos projetos. O primeiro, Lost Zweig, tem um orçamento de US$ 3 milhões e deve ser filmado até o carnaval de 99. O filme narra a última semana de vida do escritor austríaco, antes do suicídio. Véu de Curytiba, o segundo filme, narra as impressões do diretor sobre a cidade, onde viveu 30 anos. Também são docudramas, explica o diretor.





