O poeta das ruas da 'deusa descalça'
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de outubro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O valor de tudo e do nada é absoluto na poesia. Nos haikais do poeta londrinense Ivan Petrovitch, esse valor equivale à envergadura de um vôo, não sendo outra coisa que o vôo em si.
O ''Poeta do Masp'', como ficou conhecido em São Paulo, depois de mais de uma década de exílio na capital paulista, voltou a Londrina e às ruas que o inspiraram a escrever ''A minha cidade/é uma deusa descalça''.
Ele faz parte da mesma geração de Mário Bortolotto, mas está do outro lado da rua dos beatniks londrinenses e o jeito sombrio de encarar o mundo, estando mais para as gentilezas da vida - ainda que para falar da sua finitude:
''A lua brinca/de esconde-esconde no céu/a vida mingua...''
Petrovitch acredita numa poesia que passa pelas pessoas e as transpassa. ''Me formei em Letras e Teologia. Isso me deixou meio acadêmico. Respeito a arte seja ela qual for, mas acho que as pessoas estão aí para serem amadas. Não gosto de ferir os ouvidos das pessoas só para ser diferente'', comenta o poeta.
No blog ivanpetrovitch.blospot.com, a poesia do londrinense ganhou uma avenida de infinito acesso aos leitores, mas a rua ainda é o seu principal portal de acesso ao público.
O autor diz que, no começo, não gostava de vender as suas obras na rua, enfrentando o preconceito até da comunidade cultural londrinense. Hoje, ele considera um privilégio passar na vida das pessoas com poesia. ''Eu acredito nisso. Estou passando uma mensagem no cotidiano das pessoas'', afirma, acrescentando que está na rua para vender poesia, porém, alguns pedestres que aborda querem trocar idéias, contar sobre a própria vida, fazer a sua própria poesia com o cotidiano.
O poeta é autor de dois livros independentes. Um deles, ''Estação Paraíso'', publicação bilingue em português e inglês, com tradução de Michael Kelly, ganhou também uma versão em italiano. A obra rendeu ao poeta um prêmio da Universidade de Nápoles, mas o grande mérito do autor foi vender 27 mil exemplares diretamente ao leitor nas ruas.
Em 1985, ele passou a fazer parte da paisagem do Masp. A princípio, o escritor tinha a intenção de ficar somente alguns dias para vender poesias, mas a metrópole conquistou o poeta, que vive a ambiguidade de querer se sentir só no meio da multidão e sonhar com a solidão do interior.
Autor experimentalista, que já teve fases romântica e concretista, Petrovitch aumenta a envergadura de sua poesia na concisão e objetividade dos haikais. ''Para mim, atingir um haikai é melhor que escrever um compêndio de filosofia'', afirma.
Ele também criou o Grupo Ouro Verde (grupoouroverde.blogspot.com), reunindo poetas londrinenses numa tentativa de disseminar a arte, além das ruas, conquistando uma nova geração de leitores. Petrovitch afirma que busca escrever algo que dure mais do que um encontro poético na rua - o absoluto valor da poesia.
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se não bastasse a saudade
que tenho de Deus
agora é o fim
ter saudade
de mim...
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boca vermelha
explosão de estrelas
beijo de abelha


