Hélio LeitesO poeta das idéias em carne viva
Paulo Leminski possuía a virtude do prazer do texto e a inteligência de conexões de idéias
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
O dia amanheceu frio e fechado. Folhas se desprendiam das árvores e cachorros se encolhiam na soleiras das portas. Um leve vento secava o orvalho de roupas esquecidas em varais. Numa caixa de papelão, uma gata paria quatro filhotes. Um garoto caminhava para a casa com um saco de pães quentes. Havia um silêncio, o breve silêncio que só o início das manhãs comporta.
Era dia 7 de junho de 1989, o poeta Paulo Leminski deixava de respirar, abandonava a existência de livre e espontânea vontade. Para o universo médico, recebia um atestado de óbito decorrente de uma cirrose hepática. Para o universo literário, nenhum verso nasceria mais de suas mãos. Um dia nem triste, nem alegre, um dia de jaz.
Leminski caminhou para um suicídio brando. Seduzido e corroído pelo álcool, caminhou para a morte como um homem que caminha com uma dor, como se chegando adiantado chegasse primeiro. Quando um criador opta pela destruição talvez não esteja abandonando seu dom criador, mas reelaborando o conceito de um sentido. Certa vez Leminski declarou que o artista, o criador, cria para cobrir o vazio: Quando pinta um buraco na existência, você tem que tirar forças de dentro para poder colocar alguma coisa dentro daquele vazio. Criar, para ele, era um contínuo rio.
Foi o tipo de escritor que entrega sua vida à arte. Soldou, de maneira austera, vida e arte a ponto de ser praticamente impossível qualquer tentativa de separação. O que escrevia era carne de sua carne, alma de sua alma. Amarrou de tal forma sua vida à poesia que qualquer palavra pronunciada ou escrita era uma afirmação da vida no sentido amplo e irrestrito.
Paulo Leminski Filho nasceu na pequena cidade de Itaiópolis, Santa Catarina, em 24 de agosto de 1944. Com um pai polaco e uma mãe negra, passou a primeira infância às margens de uma linha ferroviária. Ainda criança passou a residir em Curitiba, cidade que adotaria como terra natal.
Aos dozes anos de idade é enviado pelos pais ao Mosteiro de São Bento, em São Paulo, para seguir a carreira religiosa. Permanece na instituição, como interno, por quase três anos, regressando para Curitiba. Autodidata, aprofundou-se no estudo de línguas, história e literatura. Abandonou dois cursos universitários - Direito e Letras.
No início da década de 60 publica seus primeiros poemas na revista ‘‘Invenção’’ ligada ao movimento concretista. No final da mesma década passou a se dedicar ao projeto de um livro de prosa poética que levaria mais de cinco anos para ser concluído, o ‘‘Catatau’’, o livro mais comentado e menos lido de Paulo Leminki. Nessa mesma época conhece Alice Ruiz, com quem se casaria e teria três filhos.
Publicado em 1975, ‘‘Catatau’’ se tornou uma das obras mais radicais da história da literatura brasileira. Sua estrutura e estilo faz com que a linguagem seja o grande protagonista, uma tempestade poética. Pode ser colocado lado a lado, de obras como ‘‘Grande Sertão: Veredas’’ de João Guimarães Rosa e ‘‘Galaxias’’ de Haroldo de Campos.
Faixa preta em judô, Leminski trabalhou como professor de história, literatura e redação em cursos pré-vestibulares, tradutor, jornalista e publicitário. Dizia que poderia fazer qualquer trabalho, mas seu verdadeiro ofício era o de poeta.
Residindo no Pilarzinho, lendário bairro curitibano, Leminski passou a colaborar com revistas e jornais do País. Entra de cabeça na música popular e começa a ter canções gravadas por Moraes Moreira, Caetano Veloso, Paulinho Boca de Cantor, Blindagem, A Cor do Som, entre outros. Seu primeiro livro de poesia, ‘‘Se não fosse isso e era quase / não fosse tanto e era quase’’ foi impresso em 1980 e logo após, no mesmo ano, ‘‘Polonaise’’.
Em 1983 publicou ‘‘Caprichos & Relaxos’’, seu primeiro livro, através de uma editora comercial (Brasiliense). Incluindo parcialmente poemas de ‘‘Se não fosse isso e era menos / não fosse tanto e era quase’’ e de ‘‘Polonaises’’, em menos de um ano o livro vendeu 15 mil exemplares, um número surpreendente em se tratando de poesia. Com ‘‘Caprichos e Relaxos’’ a poesia de Paulo Leminski ganha proporções nacionais. Misturando erudição e contracultura, passa a ser chamado de ‘‘astro pop da poesia brasileira’’.
Os anos seguintes traduz John Fante, Lawrence Ferlinghetti, John Lennon, Yokio Mishima, Alfred Jarry, James Joyce, Petrônio e Samuel Beckett. Escreve biografias de Cruz e Sousa, Jesus Cristo, Matsuó Bashô e Leon Trótski, além do romance ‘‘Agora é que são elas’’. Seu último livro de poemas, ‘‘Distraído Venceremos’’, chegou às livraria em 1987. Postumamente viriam ‘‘La via en close’’ (1991) e ‘‘Ex-estranho’’ (1996).
Em um depoimento, Leminski deixou registrado as seguintes palavras: Se algum dia eu tiver que ser lembrado por alguma coisa, quero ser lembrado pelas minha produção poética. Para mim, o resto é resto. Embora em existência a poesia era seu bem mais precioso, seus ensaios, artigos e biografias, possuem um estilo próprio próximo de sua poética. Possuem a virtude do prazer do texto e a inteligência de conexões de idéias.
Sua poesia se caracteriza pela concisão, pela clareza estética, pela musicalidade e acima de tudo por um humor restaurador de forças. Como dizem, alto-astral. Unindo o capricho da linguagem e o relaxo contraculturalmente zen, seus versos seduzem pela sinceridade que são escritos e pela vida que transparecem. Além de encantarem, seus escritos impulsionaram uma geração a se dedicar à poesia como uma reserva ecológica: A poesia é o princípio do prazer no uso da linguagem. É claro que ela não tem finalidade alguma: ela é apenas e expressão de uma alegria de viver.

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