O POETA DA PEDRA SOBRE A PEDRA
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Poesia pode ser feita das mais variadas coisas. Há poetas que fazem versos com lágrimas, sorrisos, terra, vento e pele. Há também os que utilizam cidades, cachorros, cerveja e estradas. Existem os poetas que fazem poesia com nuvens, andorinhas e caramujos. Não são numerosos, mas existem também os que fazem versos com pedras. São aqueles que trabalham de maneira sólida e cerebral com as palavras com uma espécie de antilirismo.
O pernambucano João Cabral de Melo Neto, falecido no último dia 9, foi o grande poeta da literatura brasileira capaz de construir versos com pedras. Não que sua poesia seja dura, intransponível, pesada, mas trabalha com as palavras do mesmo modo que um pedreiro com os tijolos. De uma maneira organizada e exata, juntando palavras como um pedreiro une tijolos com argamassa para construir uma casa. João Cabral unia palavras com a argamassa da razão estética, da arquitetura cerebral. Erguia poemas com a mesma exatidão que se constrói casas. Era, ao mesmo tempo, pedreiro e arquiteto.
Considerado um poeta frio, calculista e racional, recusava-se a fazer versos sentimentais ou estrofes emocionais. Seco e duro, não fazia nenhuma concessão ao confessionalismo. Cerebral e, ao mesmo tempo, social. Com seu falecimento, aos 79 anos de idade, o Brasil perdeu a única possibilidade concreta de receber o Nobel de Literatura, ao qual foi indicado várias vezes. Fez parte, em nível cronológico, da chamada geração de 45, da qual fizeram parte nomes como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Cecília Meireles, mas construiu uma obra particular. Influenciado pelas concepções estéticas do arquiteto Le Corbusier e do escritor Paul Valery, seguiu caminho próprio fora de qualquer corrente literária.
Considerava sua obra mais famosa, Morte e Vida Severina, uma obra menor. Escrita em 1955 a pedido de Maria Clara Machado, o auto de Natal pernambucano Morte e Vida Severina entrou para a história do teatro brasileiro com a montagem de 1966 com música de Chico Buarque de Hollanda. Abordando questões sociais, o texto recebeu, e ainda recebe, sucessivas montagens teatrais. Foi até mesmo convertido em minissérie televisiva. Trata-se da obra de João Cabral mais utilizada nas escolas para o ensino de literatura brasileira.
João Cabral de Melo Neto nasceu em 9 de janeiro de 1920 em Recife. Primo de Manuel Bandeira (pelo lado paterno) e Gilberto Freire (pelo lado materno), passou a infância nos engenhos de açúcar de seu pai no interior de Pernambuco. Com 10 anos de idade foi com a família para capital, onde passou a viver entre a escola e o campo de futebol. Fiel torcedor do Atlético de Recife, João Cabral jogava no time juvenil do Atlético como meio-campista. Posteriormente passou a jogar no Santa Cruz, onde foi campeão em 1935. Entre o futebol e a literatura, optou pela literatura.
Em 1940, numa viagem ao Rio de Janeiro, conhece Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade, passando a frequentar reuniões literárias promovidas por Jorge de Lima. Aos 22 anos de idade publica seu primeiro livro, Pedra do Sono (1942). Anos depois ingressaria na carreira diplomática, profissão que exerceria até a aposentadoria em 1990.
Devido ao trabalho, João Cabral passou grande parte de sua existência mudando-se de uma cidade para outra. Viveu parte de sua existência fora do Brasil. Foi embaixador na Inglaterra, Suíça, Senegal, Honduras e Espanha, país onde permaneceu por mais tempo e influenciou sua obra. Em 1952 foi removido de volta para o Brasil acusado de subversão na Espanha. Permaneceu em disponibilidade não remunerada até que o inquérito fosse julgado. Com o arquivamento do processo, voltou para o Itamaraty. Em 1968 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira deixada por Assis Chateaubriand.
Durante mais de 40 anos João Cabral sofreu de constantes dores de cabeça. Alimentava-se de seis aspirinas por dia. Chegou a dedicar um de seus poemas à aspirina, onde faz uma analogia do comprimido com o sol. Para o poeta, a aspirina seria o mais prático dos sóis, um sol prático, portátil, compacto e barato, um sol artificial capaz de funcionar tanto durante o dia como durante a noite, além de estar imune às leis meteorológicas. Uma espécie da salva-vidas de bolso.
As dores de cabeça de João Cabral, acompanhadas geralmente pela depressão, só terminaram aos 70 anos de idade. O fim das enxaquecas coincidiram com o fim de suas úlceras. As dores terminaram, mas o poeta teve que pagar um alto preço para um literato: a cegueira. Em 1993, após uma cirurgia no intestino, permaneceu dois meses na UTI. Quando saiu do hospital, estava cego, com a retina queimada. Havia ficado em coma de olhos abertos, sob a forte luz do equipamento hospitalar.
Ao contrário de escritores como Jorge Luis Borges (1899 - 1986) e James Joyce (1882 - 1941) que continuaram criando mesmo depois de cegos, João Cabral de Melo Neto abandonou a literatura. Afirmava que para escrever precisava ler, um de seus maiores prazeres. Não se sentia bem ditando versos a alguém - precisava ver a sua própria letra construindo o verso. Em suas palavras, escrevia como quem constrói uma casa, e sem os olhos não podia ver a obra ser construída, muito menos o resultado final. A escuridão veio acompanhada pela depressão.
Na ocasião da publicação de sua Obra Completa (Editora Nova Aguilar, 1994), declarou que tratava-se de seu último livro, pois havia abandonado definitivamente a literatura e se considerava ex-escritor. Diante deste quadro é quase certo que não tenha deixado nenhum baú com inéditos. Mas, curiosamente, no ano passado um periódico da Universidade do Porto publicou um poema inédito de João Cabral. O poema fala exatamente da impossibilidade de escrever um poema quando se é cego. Alerta que ninguém devia solicitar para que continuasse escrevendo, pois poema é coisa de ver, é coisa sobre um espaço. Estando cego, não mais podia aceitar tal empreitada: poema é coisa que se faz vendo.
Para João Cabral, sua literatura estava ligada aos olhos, não aos ouvidos. Estava próximo das artes plásticas e bem distante da música. Não gostava de música, era apaixonado pelas artes plásticas e viciado em cinema. No início da década de 40 chegou a se dedicar à pintura, compondo quadros abstratos. Na época em que viveu em Barcelona, conviveu com Joan Miró e Joan Bossa. O detalhe é que quando Chico Buarque compôs a música para o espetáculo Morte e Vida Severina, na lendária montagem de 1966, declarou que seu trabalho não foi exatamente compor, mas apenas seguir e realçar a musicalidade do texto. Não trata-se de um paradoxo: Cabral utilizou vários gêneros de literaturas ibéricas e não, exclusivamente, seu estilo individual.
Em seu discurso durante o recebimento do internacional Prêmio Neustadt de 1992 - em toda sua história o primeiro conferido a um escritor de língua portuguesa - João Cabral deixou claro sua recusa em fazer parte do clube de líricos que, segundo seu ponto de vista, dominava quase toda poesia produzida no mundo. Em suas palavras, em nome de expressão individual, os poetas deixaram de lado vários gêneros (como a poesia histórica, épica, satírica, narrativa, etc.) em favor da poesia de expressão pessoal e estados de espírito.
Para Cabral houve, historicamente, uma imigração do lirismo escrito para a lirismo cantado utilizando como veículo a música popular mundial com a ajuda das novas tecnologias de comunicação. E este lirismo havia superado limites geográficos e de língua assumindo proporções quantitativas que nenhum outro gênero literário foi capaz de atingir.
Nesse quadro, João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999) afirmava ser um poeta brasileiro que só escreveu poesia. Ou seja, era um poeta. Definia a poesia, e sua escolha poética, da seguinte forma: É a exploração da materialidade das palavras e das possibilidades de organização de estruturas verbais, coisas que não têm nada a ver com o que é romanticamente chamado de inspiração ou mesmo intuição. A esse respeito, creio que o lirismo, ao achar na música popular, os elementos que o completam e lhes dá prestígio, liberaram a poesia escrita e não cantada, e permitiram-lhe que voltasse a operar em territórios que outrora lhe pertenceram. Fez possível também o exercício da poesia como exploração emotiva do mundo das coisas, e como rigorosa construção de estruturas formais lúcidas, lúcidos objetos de linguagem.
João Cabral, o poeta das pedras, permaneceu fiel à sua literatura até a manhã de 9 de outubro, quando morreu sentado, na escuridão da cegueira, rezando de mãos dadas com a esposa. Fiel à sua poesia sem nenhuma concessão.
POEMA
Recepções de cerimônia que dá a morte:
o morto, vestido para um ato inaugural;
E ambiguamente: com a roupa do orador
e a da estátua que se vai inaugurar.
No caixão, meio caixão meu pedestal,
o morto mais se inaugura do que morre;
e duplamente: ora sua própria estátua
ora seu próprio vivo, em dia de posse.
(Primeira parte do poema Duas das Festas da Morte do livro A Educação Pela Pedra de 1965)
OBRA COMPLETA
Confira as obras publicadas de João Cabral de Melo Neto
- Pedra do Sono (1941)
- Os Três Mal-Amados (1943)
- O Engenheiro (1945)
- Psicologia da Composição (1947)
- O Cão Sem Plumas (1950)
- O Rio (1953)
- Paisagens com Figuras (1955)
- Morte e Vida Severina (1955)
- Uma Faca só Lâmina (1955)
- Quaderna (1959)
- Dois Parlamentos (1960)
- Serial (1961)
- A Educação pela Pedra (1965)
- Museu de Tudo (1974)
- A Escola das Facas (1980)
- Auto do Frade (1984)
- Agrestes (1985)
- Crime na Calle Relator (1987)
- Andando Sevilha (1989)
- Sevilha Andando (1993)
- Obra Completa (1994)





