Antonio Candido, 90 anos, o maior crítico literário do País, disse de Vinicius de Moraes (1913-1980) que é ''um dos poucos poetas que conservaram no seio da modernidade toda a força da grande tradição lírica da língua portuguesa''. A despeito disso, Vinicius ainda é lembrado no diminutivo - o ''poetinha'' -, como se fosse um versejador qualquer, e não o grande poeta de que fala Candido no posfácio de ''Nova Antologia Poética'', um dos volumes da nova edição de sua obra completa que a Companhia das Letras lança em 19 títulos até 2011. Esse e dois outros livros do começo de carreira - ''O Caminho para a Distância'' (1933) e ''Poemas, Sonetos e Baladas'' (1946) - chegam às livrarias amanhã, com coordenação editorial do também poeta Eucanaã Ferraz, que cuida da obra de Vinicius desde 2003.
Eucanaã Ferraz, que é igualmente um grande poeta - ele acaba de lançar ''Cinemateca'' pela Companhia das Letras -, teve um trabalho imenso para localizar inéditos e examinar a correspondência de Vinicius, que se revelou uma fonte preciosa para a revisão de erros repetidos de edição em edição. ''Ao contrário do que se supõe, Vinicius nunca foi um poeta espontâneo'', diz Eucanaã, após examinar poemas que passaram por até 15 revisões do autor. O compromisso de Vinicius com a fidelidade era tão grande que, numa carta endereçada a Manuel Bandeira, ele pergunta detalhes técnicos sobre o prédio do MEC - desenhado em 1937 por Le Corbusier e marco do modernismo brasileiro - para que sua elegia ao painel de Portinari e ao trabalho arquitetônico de Niemeyer e Lúcio Costa repetisse, de forma minimalista, as palavras azul e branco tantas vezes quantos fossem os andares.
Não é só essa a característica que se julgava ausente da personalidade de Vinicius, mais associado ao ''bon vivant'' das praias que consumia tonéis de uísque e cantava sambinhas sem compromisso. Os dois primeiros livros que chegam às livrarias trazem o lado menos conhecido do poeta maior da bossa nova, a do homem com preocupações místicas, transcendentais. O primeiro, ''O Caminho para a Distância'' (1933), lançado quando Vinicius se formava em Direito e terminava o curso de oficial de Reserva, é apresentado pelo amigo Otávio de Faria como um livro ''de difícil penetração''. E não estava errado. Quem sequer suspeitou da formação religiosa do poeta ficará surpreso com poemas fervorosos (''Purificação'', por exemplo), em que ele implora a Deus que o faça puro e guarde seu espírito.
Esse poeta católico do início de carreira foi dando lugar ao poeta sensual, sem a ''ânsia da pureza absoluta'' dos primeiros livros. Se o mundo terreno era uma fronteira para a libertação do espírito, ele se torna cada vez mais desejável, como prova seu livro ''Poemas, Sonetos e Baladas'', de 1946. Essa seria a obra inaugural do ''lirismo solto'' exaltado pelo crítico Sérgio Milliet.
Milliet considerava Vinicius ''o último e o mais brilhante dos poetas do modernismo ortodoxo'' - e foi esse o lado que prevaleceu. Ou não. Há quem garanta ter sido Vinicius um homem ''que viveu para se ultrapassar e para se desmentir'', como seu biógrafo José Castello, autor de ''O Poeta da Paixão''. E paixão, no caso, era mesmo a da raiz latina, ''passio'', sofrimento, garante Eucanaã. A fórmula de Vinicius seria invariável, segundo ele: ''A única maneira de não sofrer é não estar apaixonado, mas não vale a pena estar em paz e não estar apaixonado.'' O amor, conclui o organizador da obra completa, ''é sempre um problema para Vinicius'', seja o divino ou o humano.
Uma impressão compartilhada por Eucanaã e Sérgio Milliet é a de que o ''lirismo solto'' dos sonetos de Vinicius não obedece à anarquia dos epígonos da Semana de 22, mas a uma construção formal sofisticada de que poucos críticos se deram conta, justamente por não se tratar de um poeta pedante. ''Ele também é visto como um poeta solar, que canta a luz da praia, mas Vinicius é, antes, um poeta noturno, um poeta da Lua'', define Eucanaã, concordando com Antonio Candido quando o crítico maior diz que, na história da literatura brasileira, ele é um poeta ''das continuidades, não de rupturas'', um homem que ''não tem medo de manifestar sentimentos''. Tanto é verdade que, segundo Eucanaã, as palavras que ele repete em sua obra, de modo obsessivo, são ''morte'' e ''Lua'', tão caras aos poetas românticos, pisando deliberadamente no terreno movediço da tradição lírica portuguesa.

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