O poeta continua vivo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de outubro de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Até suas tiradas eram geniais. Uma delas: Sou imortal sim, por uma única razão: eu não posso morrer. Não tenho onde cair morto. Entretanto, uma traduz toda a sua vida artística: Minha Vida é igual a filme de mocinho. Só venci no final. E quem disse isso com toda a propriedade, na década de 70, foi um certo Agenor de Oliveira, um senhor iluminado que se tornou uma das poucas unanimidades na MPB. Na verdade, Agenor nunca existiu. Ficou sendo uma espécie de nome fantasia do grande, do imenso, do gigantesco Cartola. Que estaria, amanhã, fazendo 90 anos de vida.
É incontestável a contribuição que Cartola deu à música brasileira. Seus versos e suas melodias, enfim, sua envergadura musical foram até mesmo saudadas por monstros sagrados como Carlos Drummond de Andrade e Heitor Villa-Lobos, que em meados da década de 30 o conheceu e disse uma espécie de profecia: Esse pretinho vai longe. E foi mesmo. Mas demorou para que Cartola fosse reverenciado como merecia.
Se suas composições - pelo menos 200 canções feitas sozinho ou em parceria - já eram gravadas aqui ou ali por cantores de diversos quilates, ele mesmo só teria a oportunidade de gravar o primeiro disco aos 65 anos. Entretanto, foi em 75, no seu segundo disco, que ele daria ao Brasil - e por que não ao mundo? - uma das maiores declarações de amor em forma musical - a bela As Rosas Não Falam.
Pronto, até a intelectualidade se punha a elucubrar como um cara que mal completou o primeiro grau conseguia fazer versos tão profundos. Seria ele um gênio? Seria coisa de Deus? Sabe-se lá a razão, mas o fato é que Cartola escrevia tão lindo como compunha. Deixou pérolas como O Mundo É um Moinho, Sim, Peito Vazio, Cordas de Aço, Acontece, só para citar algumas das mais populares.
Entretanto, uma das que mais gostava - Divina Dama, composta em 1932 - foi vendida - isso mesmo, vendida - a Francisco Alves. O fato só foi descoberto tempos depois, quando alguns pesquisadores, vasculhando mais a fundo, descobriram outras vendas feitas pelo compositor. Entre elas, Infeliz Sorte, adquirida por Mário Reis. Era comum compositores anônimos comercializarem algumas de suas obras para sobreviver. Noel Rosa também fez uso desse expediente. O importante é que os louros acabaram, mesmo que tarde, sendo colocados na cabeça de seus verdadeiros donos.
Fatos como esse acabaram por compor o mito de Cartola. Ao contrário do que muitos pensam, Agenor de Oliveira não nasceu no Morro da Mangueira. Vindo de uma família pobre, ele nasceu no Catete, mais precisamente na Rua Ferreira Vianna. De lá, onde ficou até os nove anos, a família mudou-se em seguida para Laranjeiras. A coisa foi apertando, apertando, e os Oliveira só viram uma saída: morar num barracão da Mangueira.
Um dos primeiros golpes da vida foi a morte de sua mãe, quando tinha 15 anos. Com o pai nunca se bicou direito. Foi para as ruas. As rodas de boêmia o acolheram e, como reza a lenda, aos 16 anos compôs seu primeiro samba. Para sobreviver, foi de tudo um pouco. Começou trabalhando numa tipografia. Não deu muito certo. Aí, o rebelde Agenor foi trabalhar de servente de pedreiro.
Só que ele não seria um servente de pedreiro comum, não senhor. Sua vaidade era tamanha que para que o pó de cimento não caísse em seu cabelo, passou a usar chapéus feitos com papel de jornal. Não gostava porque o visual ficava prejudicado. Passou a usar um chapéu coco. Pronto, o apelido Cartola, dado pelos colegas de ofício, pegou. E quando apelido pega não há reza forte que tire.
Mas Cartola gostou. Entre um trabalho e outro, a música e a boêmia. Na década de 20, junto com Carlos Cachaça, criou o Bloco dos Arengueiros. Que pouco tempo depois viria a se tornar uma das escolas de samba mais populares e queridas do Brasil, a Mangueira. De 28, data oficial de fundação, até 1948 foi diretor de harmonia. As cores verde e rosa foram escolhidas por ele. Sua fama de bom compositor corria a boca pequena.
Além de genial, Cartola era um tanto quanto orgulhoso. Aos 38 anos, acometido de uma meningite que lhe deixaria sequelas, mudou-se do morro para Caxias para não precisar pedir ajuda a conhecidos. Passou necessidade, perdeu sua primeira esposa, Deolinda, ficou cara a cara com o miserê. Para sobreviver, trabalhou até mesmo como lavador de carros em Ipanema.
E foi nessa condição que, um belo dia, teve um encontro casual com Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) que o reconheceu e lhe disse: divino Cartola!!. O humorista não só o elogiou, como ouviu suas lamúrias e conseguiu um emprego como contínuo numa repartição pública. A sorte parecia voltar a sorrir para Cartola. Que, de quebra, voltou também a morar na Mangueira.
Foi lá que se aproximou de uma conhecida de infância, Euzabeia Silva do Nascimento, a não menos mítica Dona Zica. A partir de 52, os dois passaram a viver juntos - só se casaram no papel em 64. Dizem que foi ela, Dona Zica, quem conseguiu salvar Cartola que, àquela altura do campeonato, estava entregue totalmente ao álcool.
A união foi tão perfeita - foram para Zica os versos de As Rosas não Falam - que o casal resolveu abrir o mitológico bar Zicartola, na Rua da Carioca. O ano, 63. Lucro nenhum. Ou quase nenhum. Durou pouco. Faliu. Mas o bar serviu de ponte entre o morro e a cidade, através de frequentadores famosos. Entre eles, Nara Leão que incluiu em seu show Opinião uma das mais belas músicas composta por ele - O Sol Nascerá.
Sua popularidade cresceu. O dinheiro começava a pintar. Deu-se, inclusive, ao luxo de realizar um antigo sonho: fazer uma cirurgia plástica para corrigir o descomunal nariz, deformado por uma doença. Acontece que Cartola não seguiu o tratamento direito e o nariz diminuiu mas ganhou um formato caricato.
Bem, isso são detalhes. O importante é que aos poucos a obra de Cartola passou a ser valorizada e gravada por gente de vários naipes - de Carmen Miranda a Elis Regina, de Caetano Veloso a Paulo Ricardo, de Beth Carvalho a Alcione, de Cazuza a Lobão, entre outros.
Cartola morreu em 30 de novembro de 1980, aos 72 anos. Câncer generalizado. A Mangueira ficou de luto por uns bons dias. Não houve ombros e lenços que consolassem Dona Zica, a eterna companheira. Porém, o mais bacana disso tudo é que Cartola deixou um rico legado à MPB. Imprimiu seu estilo, fez escola (em todos os sentidos da palavra). Entretanto, o mito continua. Mais que mito, um poeta. Mas que poeta encantado!!


