O sonho para mim é uma obra de arte. Para além das explicações psicanalíticas, costumo ver o sonho como um filme ou uma exposição de quadros. Um dos mais bonitos que tive ultimamente apresentava uma japonesa com um grande buquê nas orelhas, eram orquídeas brancas.
Além da imagem bonita e cheia de sentido - porque sinalizava o começo da primavera - o sonho representava o feminino não sob o olhar do homem como aquelas moças que aparecem despidas – só elas estão despidas - na tela "Almoço na relva" (1863) de Edouard Manet, nem era expositivo como as mulheres da tela "Les Demoiselles d’Avignon" (1907), de Pablo Picasso. A mulher do meu sonho não estava ali para ser observada, era a imagem contemplada em si mesma, sua alegria vinha de dentro, uma ideia de florescer para si mesma. Era um rosto em close no qual o vento batia, com os cabelos movimentados sob uma luz noturna. Achei interessante a cena não ser diurna, embora a mulher parecesse tão ensolarada. Vai ver que o sonho, por pertencer ao sono da noite, adaptou-se à luz do horário objetivo. Meus sonhos normalmente são descontínuos, não têm a sequência dos filmes ou dos livros de narrativa linear. São cenas que se sucedem, mas quase sempre acordo sem que tenham fim.
O mais interessante foi completar o sonho só depois de acordada. Naquele mesmo dia, numa aula sobre poesia, ouvi a frase "imagens sonhadas". Então veio o estalo e o sonho se transformou num poema, foi realizado, porque aquilo que se escreve ganha existência. Segue o poema do dia 6 de outubro. Nunca mais vi aquela japonesa com flores nas orelhas, mas ela continua assim:


IMAGENS SONHADAS a flor na orelha oriental onde não voam as abelhas apenas a primavera mulheres atiradas como buquês orquídeas brancas dentes brancos rindo à toa até que tudo se misturou em algo que aconteceria quando acordei da cena cinematográfica . abri-me como quem brota uma cerejeira de mentira perfume de plástico ocidente onde havia um Japão Imperial porque o sol bateu na janela no acidente cósmico da vigília . era uma terça-feira ainda haveria você falando de Baudelaire naquele dia como quem serve no almoço o sonho das flores do mal



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