Rubens Pileggi Sá
De Londrina
Especial para a Folha2
Quando surgiu o grupo Casa 7 em São Paulo, em meados da década de 80, com suas telas gigantes rotuladas de ‘‘expressionismo abstrato’’, de carona em uma tendência internacional que pregava a ‘‘volta da pintura’’ - na verdade muito mais um apelo comercial que propriamente uma descoberta artística - mas com representantes como o alemão Anselmo Kiefer, muita gente torceu o nariz àqueles quadros escorrendo óleo fresco que faziam parte do ‘‘grande corredor’’ na Bienal de 1986. Um dos integrantes deste grupo era o artista Nuno Ramos que, ao que tudo indicava, seguiria uma carreira como pintor sem outras preocupações além daquelas formais e comerciais com que o súbito sucesso o contemplara.
Passado mais de 14 anos daquele evento - em exposição recente no Museu de Arte Moderna de São Paulo no Parque Ibirapuera - foi surpreendente perceber como o artista tirou partido e evoluiu daquela situação, num conjunto de obras em que é possível destacar uma continuidade, uma unidade, se firmando como um dos nomes mais importantes nas artes plásticas do País.
O caráter de restauração que a sua obra evoca, como que parida do caos, propondo sempre o paradoxo ao se apropriar de materiais, suportes e meios tão díspares, desequilibram a percepção do espectador. Tiras de feltro grudadas a lâminas de espelho, que por sua vez estão amarradas por fios de tecidos colados com resina sobre canos de cobre. Vidro, mármore, alumínio, vaselina, cal, madeira, areia. Gravuras, textos, fotografias, vasos de cerâmica, forno a lenha, pintura, escultura. Nada escapa desta volúpia orgânica que parece ser o destino da matéria em suas mãos.
Em seus trabalhos se destacam sempre os contrastes entre as formas e suas constituições físicas. Os elementos parecem ignorar o equilíbrio e a estabilidade. O desejo da matéria está subordinado aos limites de suas resistências, parecem querer despencar a qualquer momento. Como se fosse uma foto que captasse um instante antes que o desabamento ocorresse, temos a sensação que tudo despencará ao virarmos as costas às suas obras. Ali, naquele momento enquanto contemplamos gotas de vidro cheias de azeite deitadas sobre o bloco mármore, somos lançados a um mundo de imaginação, onde os objetos pudessem se travestir em outros, talvez menos densos, talvez menos corpóreos e ganhar vida própria em nossa ausência.
Em Nuno Ramos, o forte se faz fraco e o fraco, o mole, o leve, o flexível, se enrijecem para sustentar o pesado, o rijo, o duro. A vaselina sustenta o que resta do vaso quebrado. Dá ao mármore uma configuração de necessidade à sua presença. Forma e conteúdo estão a todo momento trocando seus papéis. Suas obras sabem fazer evocar aquilo que se perde.

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