O poder do espelho
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de junho de 2002
Marcos Losnak<BR>Especial para a Folha 
O nome dele está registrado na galeria dos escritores mais expressivos da literatura japonesa pós-guerra. Defensor das tradições de seu país, Yukio Mishima construiu uma literatura sob a influência de autores ocidentais. Arrebanhou, assim, uma legião de admiradores tanto no Japão como na Europa.
No Brasil, seus livros começaram a ser publicados na década de 80. Em poucos tempo, obras como O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, Sol e Aço, Neve na Primavera, Cavalo Selvagem, O Templo da Aurora, entre outros, invadiram as livrarias. Mas a febre Mishima, sem motivo aparente, durou pouco, e seus livros desapareceram do mapa.
Agora a Companhia das Letras está resgatando Mishima (1925-1970) através da publicação de Cores Proibidas, um de seus romances mais emblemáticos. Escrito em 1953, foi um livro ousado para a época, por falar abertamente dos porões da masculinidade japonesa.
Cores Proibidas narra a relação entre Shunsuke, um velho e feio escritor misógino, e Yuicho, um jovem e belo homossexual. O literato encanta-se com a beleza do estudante e o elege como pupilo. Propõe um pacto ao rapaz seu objetivo é vingar-se de todas as mulheres pelas quais se apaixonou e foi rejeitado. Para isso, Yuicho deve fazer com que essas mulheres se apaixonem por ele para, logo em seguida, serem desprezadas.
As orientações do velho escritor são exatas. O rapaz, por não gostar de mulheres, assume a imagem ideal para uma dupla vingança. Assim, Yuicho leva uma vida dupla. De dia, seduzindos as mulheres. De noite, frequentando bares gays de Tókio e dormindo com diferentes homens.
Nas conversas com Shunsuke, Yuichi compreende que existe um espelho mais completo para admirar sua própria beleza: a pessoa apaixonada. Narcisista, entende que as mulheres que se apaixonam por ele, sendo homossexual, são o melhor espelho para sua auto-contemplação.
Yukio Mishima (descendente de samurais cujo verdadeiro nome era Kimitake Hiraoka) trabalha com os dois personagens como elementos complementares. O feio Shunsuke detém o espírito e o belo Yuichi, o corpo. Vivem uma ligação de dependência intercalando regularmente os papéis de dominador e dominado. A turbulência da relação começa quando Shunsuke vislumbra que está se apaixonando pelo jovem.
À primeira vista ,Cores Proibidas pode parecer um folhetim gay em que as mulheres são tratadas como um pedaço de carne pendurada pelo gancho, no açougue. As leitoras vestidas com as roupas do politicamente correto sentirão, naturalmente, uma certa ojeriza do romance. Mas as questões apresentadas por Mishima são mais profundas. Entre elas, por exemplo, a maneira como os mecanismos da beleza, seja estética ou sensual, opera tanto na construção como na destruição bem como na manipulação dos princípios humanos.
Em Cores Proibidas aparecem, de maneira sutil, as idéias que Mishima aprofundaria em seu último livro, Sol e Aço, escrito pouco antes de cometer suicídio ao lado de seu namorado, nas dependências das Forças Armadas de Tókio, em 1970. Em suas idéias, o corpo pode assumir a mesma função das palavras. Assim como as palavras têm o poder de exprimir idéias, o corpo também possui tal poder.
Serviço:
Cores Proibidas de Yukio Mishima, Editora Companhia das Letras, tradução de Jefferson José Teixeira, 570 páginas, R$ 45,00.
Falo seriamente. Os homens podem se casar com troncos de madeira ou até mesmo com geladeiras. Acredite. O casamento é uma invenção do próprio homem. É uma tarefa que se encontra nos limites da capacidade humana, para a qual o desejo não conta. Pelo menos, neste último século, o ser humano esqueceu de agir impelido por seus desejos. Pense na mulher que estiver a seu lado apenas como um feixe de lenha, uma almofada, um pedaço de carne suspenso por um gancho no açougue. Faça isso e um falso desejo irá brotar dentro de você, com certeza você será capaz de dar prazer a sua parceira. Só que, como lhe disse antes, ensinar a uma mulher o prazer é algo nocivo, do qual não se tira nenhum proveito. O que realmente importa é nunca, sob nenhuma hipótese, admitir que uma mulher seja dotada de espírito. Entendeu? Pense na mulher como meramente material. Digo isso baseado em minha longa e dura experiência. Você tira o relógio de pulso quando entra na banheira para tomar banho. Se você não se desfizer completamente do espírito em seu relacionamento com as mulheres, ele logo enferruja a ponto de se tornar um objeto imprestável. Por não ter agido assim, acabei perdendo inúmeros relógios. Produzir relógios tornou-se a obra de minha vida. Juntei vinte relógios enferrujados e acabei de lançá-los no formato de obras completas.
(Fragmento de Cores Proibidas)


