O poder do design erótico
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quinta-feira, 17 de julho de 1997
Lais Pimentel Agência Estado Londres 
Arquivo FolhaMadonna fez esquentar diversas discussões sobre sadomasoquismo e fetichismo, graças aos seus vídeos e ao livro SexO erotismo está presente em todas as sociedades. Mas, em nenhum momento como neste século, as pessoas estiveram mais fascinadas pelo sexo. Nunca se buscou entender tanto o erotismo e como expressá-lo. O século 20 é o século da massificação da cultura, da comunicação, do sexo. A tradição de erotizar objetos, expressões artísticas e pensamento pode ser mais bem compreendida na exposição O Poder do Design Erótico, no Design Museum, em Londres, até 12 de outubro. A mostra funciona como mapa das vertentes da busca pelo prazer, que se pode manifestar num carro, numa roupa, num comercial de TV.
A exposição é aberta com um perfil de quatro cidades que simbolizam o clima fin-de-siecle na entrada de 1900: Viena, Paris, Barcelona e, claro, Londres. O dândi, as prostitutas, o Moulin Rouge e o Folies Bergere entram nessa parte. Nela também se encontra a remontagem do estúdio de trabalho de Sigmund Freud, cujas idéias modificaram a forma de se entender o inconsciente, o desejo e o prazer. Objetos e móveis de seu consultório, em Viena, com esculturas eróticas e amuletos, foram emprestados para a exposição.
O movimento surrealista levou, para as artes, o impacto das idéias freudianas, com obras de artistas como Salvador Dali, Max Ernst e Man Ray. A partir dos anos 30, o choque provocado por imagens criadas pelos surrealistas começava a ser absorvido por Hollywood (Hitchcock convidou Dali para criar a cena do sonho do filme Quando Fala o Coração), pela propaganda, pelo design e pela moda. A estilista Elsa Schiaparelli patrocinava artistas surrealistas para criar tecidos, jóias e garrafas de perfume.
A exposição dedica uma ala, estrategicamente protegida por cortinas, aos móveis e à fotografia do designer italiano Carlo Mollino. Sua obra é centrada no erotismo e surge como extensão de seu estilo de vida: a de um playboy com obsessão por velocidade, carros e, principalmente, pelas curvas do corpo feminino, sua grande inspiração. Algumas fotos de nu do arquivo de Mollino estão no Design Museum.
Para Mollino, o uso constante de certas cores na decoração dos interiores que criava - vermelho, verde, preto e dourado - era emblemático de sua paixão erótica. Muito de sua arquitetura foi destruída, valorizando a possibilidade de conhecer suas obras nesta exposição.
Os anos 60 foram o período da revolução social, artística e sexual. Jovens rebelavam-se contra a opressão das gerações anteriores. O amor livre era incentivado e a arte pop conheceu seus mestres, como Andy Warhol, Claes Oldenburg e Allen Jones. Eles romperam com a tendência pelo abstracionismo e a figura humana tornou-se, novamente, importante fonte artística, possibilitando que artistas explorassem seus desejos sexuais na arte.
Carros O controvertido trabalho do artista plástico Allen Jones é usado como exemplo da fragilidade dos limites entre o erótico e o tabu. Ao escolher manequins de mulheres para criar móveis, Jones pôs a figura feminina em posição submissa. Sua atitude levantou, de forma direta, o debate sobre a opressão da mulher. Seus objetos são ambíguos. São peças ao mesmo tempo decorativas e funcionais. Como toda obra de arte, tem vários significados e está aberta a interpretações.
As associações entre carro, velocidade, sexo e poder estão exemplificadas na ala Speed, Power & Fast Cars. As emoções de dirigir e fazer sexo tornam-se próximas, a ponto de influenciar o design dos automóveis. O carro vira a alcova dos tempos modernos e filmes como O Selvagem (The Wild One) e Sem Destino (Easy Rider) ajudam a popularizar a ligação entre carro e erotismo.
Alternativas à visão heterossexual estão reunidas no Separate Spheres, quando modelitos andróginos, como os assinados por Jean-Paul Gaultier e Vivienne Westwood, são convocados a lembrar da barreira fugaz entre o masculino e o feminino. David Bowie é um exemplo de artista que ajudou a tornar chique a idéia da bissexualidade. Boy George também entra na roda, como exemplo de ídolos que, ao assumirem-se como gays, ajudaram a fortalecer o movimento homossexual.
Madonna Mas a figura mais importante da mostra é, sem dúvida, Madonna. Por meio de sua enorme popularidade, a cantora fez esquentar diversas discussões sobre sadomasoquismo e fetichismo, graças aos seus vídeos e ao livro Sex. A partir dos anos 80, as empresas passaram a levar em consideração o consumidor gay e o apelo erótico explicitamente dirigido aos homossexuais começa a ser visto em campanhas publicitárias.
Na verdade, como se confere na exposição, não é de hoje que o sexo é usado como instrumento de estímulo de venda. Exemplos de cartazes do começo do século comprovam que a tendência não nasceu ontem. Mas, nos últimos anos, raros são os produtos que não se valem de um toque erótico para despertar o interesse do público. Erotismo vende jeans, sorvete, perfume e tudo o mais que caiba na embalagem feita para a libido. Se o principal tema dessa exposição é o erotismo, o subtema seria o fato de que tudo isso é discutível e pessoal e, no fundo, o erotismo está, acima de tudo, nos olhos de quem vê.


