O PODER ASIÁTICO INVADE CANNES
O drama de época Vatel, superprodução francesa de 37 milhões de dólares dirigida pelo inglês Roland Joffé (Palma de Ouro com A Missão em 86), com Gerard Depardieu, Uma Thurman e Tim Roth, abre hoje oficialmente, hors- concours, o 53º Festival Internacional do Filme de Cannes. Extra-oficialmente a abertura foi ontem, com o encontro O Cinema do Amanhã, organizado pelo jornal Le Monde, presidido pela atriz Isabelle Huppert e reunindo cineastas, intelectuais e profissionais do setor. Eles estão debatendo - os trabalhos só terminam hoje à tarde - a criação cinematográfica em confronto com as transformações econômicas e tecnológicas. Hoje, na abertura de gala, a programação ainda prevê uma saudação ao cinema pela companhia de dança do coreógrafo Montalvo-Hervieu e um curta-metragem inédito de Jean-Luc Godard, Da Origem do Século 21.
Para a edição que está começando, a comissão de seleção viu o número recorde de 1.397 filmes - 1.138 no ano passado. Entre os 681 longas inscritos foram eleitos os 23 que participam da competição oficial, os 22 da seção paralela Un Certain Regard e 8 fora de competição. Entre as delegações representadas em busca da Palma, o destaque evidente são os asiáticos, que espantaram o eurocentrismo que costuma vigorar nas seleções. Nem os franceses, donos da casa com 4 representantes, ameaçam a predominância de filmes da China continental, Hong Kong, Taiwan, Japão e Coréia. O Oriente Médio também mostra vitalidade: Israel emplacou dois títulos em competição e o Iran foi aceito e compete com o cinema do diretor mais jovem da história de Cannes: a bela Samira Makhmalbaf em seu segundo filme, Le Tableau Noir, que sucede A Maçã.
Surpreendentemente, o Brasil retorna este ano à Croisette - a principal avenida de Cannes, endereço do Palais des Festivals, dos hotéis multiestelares e da maior concentração mundial por metro quadrado de ricos famosos e anônimos candidatos à fama. Ruy Guerra, que já participou duas vezes (Erendira e Kuarup), volta a Côte dAzur levando na bagagem a adaptação de Estorvo, o livro muito comentado e pouco lido - mas sempre amado - de Chico Buarque de Holanda, que aliás já programou uma força ao amigo cineasta no dia da projeção do filme. Na categoria curta-metragem, também concorrendo à Palma de Ouro, 3 Minutos é outro brasileiro, da gaúcha Ana Luiza Azevedo. Produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre, com roteiro de Jorge Furtado, o curioso é que o filme foi recusado pela comissão de seleção do Festival de Gramado de 99. Os outros representantes da terra são o longa Eu, Tu, Eles, de Andrucha Waddington, escalado para a mostra Un Certain Regard, e os curtas De Janela pro Cinema, inteligente animação de Quiá Rodrigues já muito rodada no circuito festivaleiro nacional, e o desconhecido curta Rota de Colisão, estréia do carioca Roberval Duarte encaixada na Quinzena dos Realizadores. Não chega a ser motivo de euforia, mas é uma seleção brasileira de imagens como há muito não se via, mundo afora.
Figurões e estreantes se
encontram no festival
O conjunto de filmes este ano em Cannes combina nomes consagrados do cinema mundial com estreantes e com cineastas que há muito não compareciam. Numa primeira avaliação, não há tantos figurões com assinatura de peso. Prevalece o equilíbrio. Uma leitura rápida nas sinopses mostra a presença de filmes clássicos e modernos, de época e de gênero. Ao que tudo indica, o melodrama está de volta, nos trabalhos do dinamarquês Lars von Trier e do chinês Wong Kar-wai. Liv Ullmann trabalhou sobre um roteiro de Ingmar Bergman, e a influência do mestre deve ser sentida. A política autoral não deixou de ser contemplada. A própria presença de Ruy Guerra é uma evidência.
Os americanos desembarcam na seção competitiva com três títulos. Destes, somente a comédia negra do irmãos Coen (que já levaram uma Palma em 91 com Barton Fink) pode ser chamada de peso pesado. Mas a entrada dos novatos James Gray e Neil LaBute deve ser observada com ótimos olhos, a julgar pelas estréias que tiveram. Ken Loach, inglês veterano de Cannes, foi a Los Angeles para observar relações trabalhistas, uma de suas especialidades. E os franceses, como vem acontecendo nos últimos anos, não devem assustar apesar dos quatro concorrentes.
Algumas homenagens estão previstas. A Gregory Peck, com a projeção de um documentário da especialista Barbara Kopple. A Philipe Noiret, o Alfredo de Cinema Paradiso, que recebe o Troféu do Festival. À atriz Elizabeth Shue, convidada de honra para a retrospectiva O Cinema Sonha o Futuro, que apresenta 33 filmes que marcaram o século da ficção científica no cinema. Cannes também reverencia a memória de Robert Bresson, o cineasta da moral e da alma, morto este ano.
Mesmo quando não apresenta uma seleção de primeiríssima linha, o que é o caso, o Festival de Cannes oferece sempre, na diversificação de suas mostras paralelas, não apenas a mais importante radiografia do estado das coisas do cinema, mas também uma privilegiada visão de conjunto do mundo contemporâneo. E para atribuir o peso devido aos concorrentes da mostra competitiva de longa-metragem, o júri este ano está constituído pelos diretores Luc Besson, Nicole Garcia, Mario Martone e Jonathan Demme, pelo escritor indiano Arundhati Roy, pelas atrizes Aitana Sanchez-Gijon, Barbara Sukowa, e Kristin Scott Thomas, pelo ator Jeremy Irons e pelo escritor francês Patrick Modiano.
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge está em Cannes a convite da organização do Festival.





