O poder
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de novembro de 2018
Domingos Pellegrini <br> Especial para Folha 2 
O poder piora as pessoas, diz o pessimista, o otimista diz que não, apenas faz progredir sua parte pior. Exemplo são as fotos em que Trotsky está e depois não está ao lado de Stalin, que mandou sumir oficialmente com seu rival. (Quanto poder e quanta ingenuidade supor que nenhuma foto fosse se salvar, para ser no futuro comparada com a falsificada...) E assim Trotsky perdeu a vida e, tão autoritário quanto Stalin embora não assassino, ganhou a notoriedade dos mártires, enquanto Stalin, como mandante do sujeito que enfiou picareta na cabeça de Trotsky, tornou-se protótipo dos ditadores na visão mundial.

O poder rejuvenesce, diz o otimista mostrando fotos de presidentes sorridentes, e também envelhece, diz o pessimista apontando fotos deles antes e depois do poder. Obama desceu e subiu escadas saltitantemente, mas os cabelos também grisalharam rapidinho.
Fortalecendo ou enfraquecendo, certo é que o poderoso tem tanto poder quanto vaidade. E que bom seria, diz o pessimista, se o poderoso se contentasse em ser pago pela vaidade, em vez de acrescer riquezas ao salário. Porém quão melhor é, diz o otimista, que os poderosos apenas se paguem com riqueza, em vez de também supliciar o povo com caprichos como Nero.
Mas Nero foi vários, como é típico dos poderosos. Imperador aos 16 anos, foi governante capacitado, capaz inclusive de mantar matar primo pretendente ao trono e depois até a própria mãe, além de uma série de rivais. Casou duas vezes, na segunda com a mulher de amigo que seria futuro imperador, o poder em Roma era trânsfugo.
Depois Nero exilou e acabou matando a primeira mulher, enquanto restringia o Senado. Mas promovia eventos de música e poesia, e também tanto combates de gladiadores quanto jogos atléticos. Chegou a participar das Olimpíadas da Grécia no ano 67, como condutor de um carro de dez cavalos e também como ator e cantor. Depois de subornar os juízes das provas olímpicas, mandou expor em Roma os louros conquistados.
Com a morte da segunda mulher, casou-se com Messalina, depois de forçar seu marido a se matar. Mas seu governo visava os pobres, aliviando impostos e socorrendo necessitados, por isso era muito popular. Mandou queimar Jerusalém, mas é mais lembrado como culpado pelo grande incêndio de Roma, porém depois abrigou muitos sem-teto no próprio palácio. E, para se livrar da acusação de promover o incêndio para liberar área para outro palácio, culpou os cristãos, matando muitos para dar exemplo ou por gosto, mandando que fossem lançados aos cães, enforcados ou queimados. Mas também compunha músicas e tocava harpa, muito aplaudido pelos batalhões que convocava como plateia, assim como Collor corria para a imprensa.
Depois que o Senado se vingou nomeando outro imperador, aos 31 anos, em fuga, para não ser preso Nero ordenou a seu secretário a própria morte por punhal, diz a lenda que antes proferindo a famosa frase: - Que artista perde o mundo! (os poderosos sempre tem uma grande opinião sobre si mesmos).
O poderoso, porém, que se prepare para poder cada vez menos, conforme as democracias vão avançando e as decisões são distribuídas e consensuadas. Querer não é poder, que o diga Bolsonaro diante do Congresso.
E o poderoso é também, no fundo, um solitário. Como Tancredo Neves, a ninguém contando de sua dor na barriga, temendo interrompessem sua marcha para a presidência, até começar a gemer e enfim sucumbir. O poder é para poucos, e parece que tanto atrai quanto mata, dirá o pessimista, mas constrói tanto, dirá o otimista. O bom senso apenas pergunta a que custo.


