O planeta sonho será Terra
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de abril de 2003
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
Redonda e única, a Terra é hoje uma bola disputada por 6 bilhões de pessoas. A velha e incansável senhora dá sinais de exaustão com tanta gente usufruindo de rios, mares, florestas, ocupando cada centímetro dos sertões hostis às grandes formações urbanas onde uma árvore aqui, um pássaro ali ainda dão conta de que o que sustenta a vida...é a vida. O conceito aparentemente simples parece bobagem, não fosse apoiado por idéias revolucionárias como as do químico da atmosfera e inventor inglês, James Lovelock, que, a partir dos anos 70, lançou um outro olhar sobre a Terra e nela descobriu uma vocação teimosa para se sustentar e evoluir a que batizou de Gaia. O nome grego, que se refere à Mãe da Criação, é apropriado para se compreender que o planeta, apesar de tudo, opera cotidianamente um milagre que começou no caos. Para Lovelock, a Terra conspira a favor de si mesma, com todas as espécies e elementos que a sustentam cooperando para que a vida não se desfaça.
No sistema solar, pelo que se tem notícia, não há outro reduto onde a magia da existência se processe de forma tão peculiar, firme e cooperativa quanto na Terra. Há décadas, as sondas espaciais percorrem mundos inóspitos que não se comparam à explosão de vitalidade recolhida no colo da Grande Senhora. Como uma mãe calorosa, a Terra ainda deve se orgulhar de sua prole insondável. Das bactérias ao homo sapiens há um esforço de construção que só pode mesmo ser imaginado como o milagre de Gaia. Mas logo o homem, o inteligente, se adianta em decretar a ganância como um valor que subestima os outros seres. Hoje, há mais de 11 mil espécies de animais ameaçados de extinção. Este aniquilamento pressupõe, para as próximas décadas, o desaparecimento de 24 por cento dos mamíferos, 12 por cento dos pássaros, 25 por cento dos répteis, 30 por cento dos peixes. Números que calculados, mesmo friamente, despontam sombrios para o futuro da Terra. Pior ainda se os números forem convertidos em poesia. Teremos 24 por cento a menos de variedade e beleza, 12 por cento a menos de ninhos e cantos, 30 por cento a menos de movimento e procriação no rito incessante das águas. Não resta dúvida de que a matemática, além de precisa, neste caso é triste.
Mas vamos voltar à Gaia, tentar compreender porque a Mãe Terra é única na sua vocação incansável para a vida. É o que o planeta concentra, entre outras coisas, condições atípicas de oxigênio em relação aos seus outros irmãos do sistema solar. Enquanto na nossa atmosfera há 21 por cento de oxigênio, Marte tem apenas 0,13 por cento do elemento fundamental para nossos pulmões. A situação de Vênus é pior ainda. A representação no Cosmos da deusa mítica tem sua beleza condenada a condições decepcionantes por apresentar praticamente 0 por cento de oxigênio na atmosfera. É assim como uma miss linda e hostil. Em resumo, uma mulher desperdiçada.
Sabendo de tudo, como poupar a abençoada Gaia? Primeiro compreendendo o planeta como um sistema único, onde uma corrente se estabelece e funciona em cadeia, com espantosa sincronicidade. Se matamos a floresta desabrigamos a vida que, ainda assim, se processa teimosa no deserto, tal é a vocação de Gaia. Mas se cometemos o abuso, o desrespeito, a violência coletiva da derrubada das matas e da condenação das espécies também atingimos o homem. Hoje, pela avaliação das reservas dos recursos naturais, teremos que lutar muito para manter em equilíbrio as condições do planeta, acreditando que a vida é capaz de vencer a desolação. Já somos 6 bilhões de pessoas disputando a bola. Deste total, 1 bilhão nasceram nos últimos 12 anos. Porque a Terra engravida, senhores, e com a graça de Gaia também são férteis as mulheres pobres que contribuem para que 350 mil novos seres humanos nasçam a cada 24 horas.
Para acomodar toda essa gente, além da matemática, vamos ter que contar com uma grande dose de amor e de profunda generosidade. Controle consciente da população, distribuição de renda, preservação dos recursos naturais não são apenas retórica de pessimistas, mas bases de uma revolução ética de culturas e valores dos quais dependem a sobrevivência do planeta. No Dia da Terra, fica o desejo de que a força exuberante da vida em cadeia prevaleça sobre a morte pela ganância entre os homens de boa vontade.


