O planeta em preto e branco

Fo­tó­gra­fo Se­bas­tião Sal­ga­do traz pa­ra Cu­ri­ti­ba a ex­po­si­ção Ge­ne­sis, re­sul­ta­do de oi­to anos de vi­a­gens aos qua­tro can­tos do mun­do

Publicado sexta-feira, 07 de novembro de 2014 | Autor: Adriana De Cunto às 00:01 h

Curitiba - O Museu Oscar Niemeyer (MON) abriu ontem, em Curitiba, a exposição "Genesis", do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. Até o dia 15 de março de 2015, os paranaenses poderão conhecer o resultado de oito anos de trabalho de Salgado, fruto de 32 viagens aos quatro cantos do mundo. Os pontos escolhidos foram lugares onde as paisagens, os animais e os homens ainda vivem um diálogo intenso com o planeta. É a Terra como existiu um dia, antes que a vida moderna tomasse conta.

Uma ba­leia-fran­ca-aus­tral (Eu­ba­la­e­na aus­tra­lis) en­tre o Gol­fo San Jose e o Gol­fo Nu­e­vo. Pe­nín­su­la Val­dés, Ar­gen­ti­na. 2004.
Uma ba­leia-fran­ca-aus­tral (Eu­ba­la­e­na aus­tra­lis) en­tre o Gol­fo San Jose e o Gol­fo Nu­e­vo. Pe­nín­su­la Val­dés, Ar­gen­ti­na. 2004. | Foto: Fotografia de Sebastião Salgado/ Amazonas Images


Com curadoria da mulher do fotógrafo, Lélia Wanik Salgado, a exposição traz para Curitiba 245 imagens selecionadas e divididas em cinco partes: Planeta Sul, Santuários, Amazônia e Pantanal, África e Terras do Norte.
Ao chegar à sala 4 do MON, o visitante é recebido por imagens surpreendentes da Antártida, como o mergulho dos pinguins de uma montanha de gelo para dentro do oceano gelado ou uma baleia atirando a cauda gigantesca para o céu. De imediato, o público vai perceber que mesmo em busca da natureza bruta, Salgado não abriu mão de uma característica forte em seu trabalho: a ausência de cores. As imagens, em preto e branco, deixam para as pessoas a tarefa de imaginar o verde da Amazônia, o vermelho da África ou o azul das ilhas que formam a seção Santuários. As várias gamas de cinza viram rabiscos e reforçam as texturas da terra, dos relevos e o movimento das águas.

As mu­lhe­res mur­si e sur­ma são as úl­ti­mas mu­lhe­res do mun­do a usar dis­cos pa­ra es­ten­der os lá­bi­os. Dar­gui, po­vo­a­ção mur­si no Par­que Na­ci­o­nal Ma­go, per­to de Jin­ka. Etió­pia. 2007.
As mu­lhe­res mur­si e sur­ma são as úl­ti­mas mu­lhe­res do mun­do a usar dis­cos pa­ra es­ten­der os lá­bi­os. Dar­gui, po­vo­a­ção mur­si no Par­que Na­ci­o­nal Ma­go, per­to de Jin­ka. Etió­pia. 2007. | Foto: Fotografia de Sebastião Salgado/ Amazonas Images

ENTREVISTA
Na tarde de quarta-feira, enquanto funcionários do museu trabalhavam na montagem da exposição, o casal Salgado concedeu uma entrevista coletiva. Sebastião, de 70 anos, chegou e foi logo cercado por fãs e jornalistas. Usando uma jaqueta jeans, boné e mochila nas costas, a impressão é que depois da entrevista o fotógrafo pegaria o primeiro helicóptero e partiria para outra grande aventura a um local inóspito qualquer do planeta.
Mas a aventura não é bem assim. O projeto que resultou no livro e na exposição "Genesis" levou, ao todo, 12 anos para se concretizar - dois anos de preparação, oito anos fotografando e dois anos selecionando e finalizando o material. "Foi necessária muita organização. Qualquer que seja o lugar, no Brasil, na Indonésia, era preciso ver quais eram as organizações que trabalhavam com as tribos. Tinha que ter autorização, por exemplo, da Funai, das tribos, encontrar um linguista que trabalhava com as tribos", explicou. Salgado fez as contas: nos oito anos de trabalho de campo, foram 32 viagens (média de dois meses cada uma) e oito meses por ano longe de casa. Os cálculos apontaram cinco anos e meio de trabalho direto, fotografando.
Alguns períodos de solidão absoluta. "Eu lembro de uma vez em que eu estava no Alasca. Tinha um aviãozinho que me aterrissava em um ponto e vinha me buscar uns dez dias depois. Eu ficava só. Às vezes eu subia em um desnivelamento de mil, mil e cem metros ou em uma montanha. Sentava lá e ficava durante sete, oito horas, para acompanhar a mudança de luz e ir me integrando com o ambiente. Era muito forte, você se sentia parte daquilo o tempo todo", contou.


icon-aspas Às vezes eu subia em um desnivelamento de mil, mil e cem metros ou em uma montanha. Sentava lá e ficava durante sete, oito horas, para acompanhar a mudança de luz
Sebastião Salgado - Fotógrafo

DOAÇÃO
Cinco fotografias da exposição Genesis serão doadas para o acervo do MON. Sebastião disse que costuma fazer doações a museus e órgãos públicos, mas aproveitou para criticar a falta de planejamento e de interesse das instituições públicas na compra de obras artísticas. "É um crime, aqui no Brasil, as instituições públicas nunca terem dinheiro para comprar as obras. Um museu é um depositário para as gerações futuras. O que tiver aqui dentro guardado e for mostrado para as próximas gerações, daqui a 100 anos, conta uma história deste momento. O Poder Público deveria ter essa preocupação de guardar uma parte de recursos para compra de artes. Porque isso aqui é propriedade da comunidade", alfinetou.

Pa­ra o fo­tó­gra­fo, as fo­tos mos­tram lu­ga­res que o ho­mem de­ve pro­te­ger. “Is­so aqui (Ge­ne­sis) é uma es­pé­cie de ba­lan­ço do pla­ne­ta”
Pa­ra o fo­tó­gra­fo, as fo­tos mos­tram lu­ga­res que o ho­mem de­ve pro­te­ger. “Is­so aqui (Ge­ne­sis) é uma es­pé­cie de ba­lan­ço do pla­ne­ta” | Foto: Theo Marques



PRESERVAÇÃO AMBIENTAL

A ideia de "Genesis" surgiu enquanto ele trabalhava no reflorestamento de uma fazenda que herdou do pai no interior de Minas Gerais. "Mais de 90% dos brasileiros moram em área urbana e abandonaram o planeta. Nós dependemos muito dessa preservação", observou. Para o fotógrafo, a humanidade precisa dessa reintegração com o meio ambiente. "Isso aqui (Genesis) é uma espécie de balanço do planeta", definiu. Para Salgado, as fotos mostram lugares que o homem deve, obrigatoriamente, proteger.

Preocupado com o desrespeito à demarcação das terras indígenas no Brasil e com a saúde dos rios, o artista lembrou que a severa escassez de água em São Paulo é uma demonstração do afastamento do homem com a natureza. Outra causa que Salgado já abraçou: a recuperação da Bacia do Rio Doce, que banha os Estados de Espírito Santo e Minas Gerais.
Quando o projeto Genesis começou, Salgado chegou a pensar que seria o último grande trabalho, mas ele já está concluindo um novo livro, dessa vez, sobre café. A publicação será lançada em maio de 2015, na Itália. Também já deu os primeiros passos para um novo grande projeto, sobre comunidades indígenas, que deverá demorar mais uns quatro ou cinco anos. "Os fotógrafos nunca param. É um prazer fotografar. Não é um trabalho, entre aspas, que um dia você tem que parar e se aposentar. Fotografia é uma forma de vida", resumiu.
"Genesis" já passou por outras cidades do Brasil, França, Suíça, Itália, Inglaterra e Canadá. Em 2015, outros países também receberão a mostra, entre eles China, Coreia, Alemanha e Portugal. Essa é a terceira expedição, de longa duração, de Sebastião Salgado a questões globais. As primeiras foram Trabalhadores (1986-1992) e Êxodos (1994-1999), que retrataram as duras consequências das radicais mudanças econômicas e sociais sobre as vidas humanas.

Serviço:

Exposição: "Genesis", de Sebastião Salgado

Quando: Até 15 de março de 2015, de terça a domingo, das 10h às 18h

Onde: Museu Oscar Niemeyer (R. Marechal Hermes, 999, Centro Cívico), em Curitiba

Quanto: R$6 e R$3 (meia-entrada). Menores de 12 anos e maiores de 60 anos têm entrada franca.