O peso de uma história real
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de outubro de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
O recente Festival de Gramado trouxe este ano à apreciação do júri um pacote de filmes brasileiros de muita qualidade, a maioria deles centrada na temática familiar. Três títulos já foram colocados à disposição do público londrinense pelos exibidores, todos devidamente recompensados com uma cesta com Kikitos variados: o impactante vencedor da mostra, o paranaense/universal "Ferrugem", de Aly Muritiba; o muito simpático e afetuoso "Benzinho", de Gustavo Pizzi, com troféu de melhor atriz para Karine Telles, e este de estreia mais recente (entrando nesta quinta em segunda semana de exibição), "10 Segundos para Vencer", de José Alvarenga Jr, com o troféu mais merecido, o de melhor ator para Osmar Prado.

A cinebiografia pode ser a via para o sucesso ou um atalho para a trivialidade, para a inexpressividade. O mesmo Gramado ofereceu ao público as duas opções: a primeira,a história do maior pugilista brasileiro de todos os tempos, o paulistano Éder Jofre; a segunda, contando a ascensão, glória e decadência de Wilson Simonal, indiscutível talento enquanto artista da música popular brasileira, e homem polêmico e controvertido durante os anos da ditadura. São duas histórias baseadas em fatos reais, embora a de Simonal traga ao debate público uma série de complicações que ainda hoje mantém seu caráter numa espécie de limbo. Nem por essas implicações, digamos, político-existenciais, o filme é superior à trama sobre à luta extra ringue travada por Jofre para ser um dos maiores lutadores de todos os tempo, dentro e fora do país.
Poderia ser mais um documentário (já existe "Éder Jofre : Uma Vida de Vitórias"), mas a eleição dos produtores foi pela dramaturgia que ficcionaliza a carreira do pugilista, primeiro brasileiro a entrar no Hall da Fama do Boxe em 1992. O campeão poderia ter sido Waldemar Zumbano, o outro filho do treinador argentino José Aristides Kid Jofre, o Kid Jofre, mas o rapaz jogou fora suas chances por causa da bebida e de uma briga de bar. Surge então, no final dos anos 1950, a figura do filho Éder, que dá novo alento aos sonhos de pai. Mesmo querendo ser desenhista e mais tarde arquiteto, Éder acaba muito bem treinado por Kid Jofre. Uma serie de lutas vitoriosas nos Estados Unidos o leva a disputar e ganhar o titulo mundial da categoria peso-galo. Nos anos 1960, sua carreira atinge o ponto mais alto.
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O argumento de "10 Segundos para Vencer" não se detém só na glória. O sucesso traz a inevitável pressão, e o peso do título e dos treinamentos intensos levam o boxeador ao recolhimento da vida pessoal, decretando a aposentadoria aos 30 anos, casado e com um filho. O filme mostra o retorno de Éder ao esporte, que vai do cansaço e abatimento. O "Galinho de Ouro", como ficou conhecido tenta recuperar sua reputação nos ringues. Afinal conseguida quando, enquadrado em nova categoria (agora dos pesos-pena) na qual se torna novamente campeão mundial, nos anos 1970. Escrito por Thomas Stavros e Patricia Andrade, o roteiro encontrou em José Alvarenga Jr. um diretor sensível, cujo maior mérito é o de extrair dois excelentes desempenhos dos dois protagonistas, Éder & Kid Jofre. Daniel de Oliveira e Osmar Prado, ambos no melhor de suas formas, entregam ao público duas interpretação muito ricas em nuances. O sonhador Éder recebe um adequado tom agridócil (vale o neologismo) de Oliveira, enquanto Prado faz da obstinação do Kid um atributo natural sem nunca ser ditatorial ou caindo para o caricaturesco. Afinadíssimos ambos, reeditaram na rodada de debates em Gramado essa química natural que deslumbrou a todos.
O trabalho de fotografia, o desenho de produção e a edição sonora são de grande eficácia para o resultado harmonioso que emana da tela. Nada a dever aos modelos do gênero do cinema ianque.


