O pesadelo americano em Cannes
O pesadelo americano em Cannes
O drama de trabalhadores latinos nos EUA está em filme inglês politicamente anacrônico mas correto
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Cannes
Especial para a Folha2
Um festival em busca do sol. Esta parece a tônica subliminar dos 3.800 profissionais de imprensa reunidos em Cannes para a maior celebração mediática do cinema mundial. Os filmes, matéria-prima absoluta, já não são tão objeto do desejo. Não enquanto a radiante luminosidade habitual neste período do ano não comandar de novo o espetáculo. Passada a jornada de estréia, com a montée de marches inaugural - a subida da escadaria do Palais - liderada pelo primeiro-ministro Lionel Jospin (fã confesso de Tarzan, James Bond e dos westerns de John Ford), já se sabe com certeza o motivo da convulsão que desordenou o ir e vir dos jornalistas no Palais des Festivals. Para a grande gala de estréia foi preparada uma réplica - bem mais barata e menos suntuosa - da França setecentista tal e qual se assiste em Vatel, o belo filme que abriu Cannes-2000. Quase todo o espaço de circulação ficou tomado pela encenação que movimentou cenários e muitos figurantes. Tudo desmontado, objetos e lugares reconhecidos, a paz de volta aos deslocados coleguinhas. Ao trabalho, pois. Filmes não faltam.
Raros, os cineastas que mantêm fidelidade temática em suas trajetórias. Um desses autores rigorosos é o inglês Ken Loach, que conserva um exemplar comprometimento social na melhor tradição da escola britânica. Em sua décima primeira participação no Festival de Cannes, entre mostras competitivas e paralelas, ele apresenta Bread and Roses. Não é cinema fora de série, mas é dotado de tal ardor, de tamanho empenho, de tanto e tão sincero engajamento que fica difícil não participar com simpatia de suas campanhas filmadas em busca de equilíbrio entre classes sociais.
É o caso de Bread and Roses. O filme, uma espécie de docudrama rodado em Los Angeles - o que não significa rendição ao canto de sereia de Hollywood -, trata exatamente do contrário da Meca do cinema. É num universo paralelo, aquele de trabalhadores hispânicos, vulneráveis imigrantes clandestinos, que evoluem os personagens do argumento. O título, tirado de um famoso movimento grevista ocorrido em 1912 nos Estados Unidos, é agora palavra de ordem dos manifestantes sindicais que reivindicam uma série de direitos de quem trabalha à noite, às escondidas, nos escritórios envidraçados das grandes corporações. A partir da recém-chegada clandestina mexicana Maya, de sua cada vez maior compreensão do próprio status social e dos colegas nas mesmas condições - e consequentemente da conscientização política da comunidade de ilegais - o diretor Loach dá o seu recado. Um recado de cartilha sindical sem sutilezas, curto, grosso. E, na verdade, ingênuo. Aquela ingenuidade mixada a idealismo, sincera, transbordante, eufórica. Nesse sentido, Bread and Roses é uma nostálgica viagem no carrossel do tempo, um mergulho ideológico nos anos 60, do esquerdismo de passeata, das faixas e cartazes, da reação policial potencialmente desejada, da repercussão na mídia - então pouco conhecida por este nome. Para o filme, esta ainda é a melhor política de resultados, desafiando estratégias sindicais anos 90.
Nada a estranhar, no entanto. O roteirista é Paul Laverty, velho advogado americano militante dos direitos civis e minucioso conhecedor da América Latina. Segundo ele, o que está em Bread and Roses é de fato resultado da capacidade de resistência, da energia e da irreverência dos trabalhadores imigrantes clandestinos. Para o papel decisivo de Maya, Ken Loach escalou uma estreante no cinema, Pilar Padilha, até então atriz de algumas poucas peças no México. A espontaneidade, o caráter e a presença diante da câmera vão dar trabalho ao júri, especialmente às quatro atrizes escaladas - Barbara Sukowa, Aitana Sanchez Gijon, Nicole Garcia e Kristin Scott Thomas
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge está em Cannes a convite da organização do festival.





